• Napolitano como meu pé

Quadrinho | Mjadra (Thiago Ossostortos)

Ano passado comprei e li o quadrinho Os últimos dias do xerife e me apaixonei pela história que o Ossostortos se propôs a contar, além do traço dele que fazia aquilo tudo fazer sentido.

Logo depois de ler, já apoiei o projeto dele que estava em campanha no Catarse, o do quadrinho Mjadra. O título era completamente diferente e estranho e o traço também: dessa vez ele usaria guache e eu estranhei logo de cara.


Mas confiei porque entenda: eu tava apaixonada demais por Os últimos dias do xerife. Pois bem, o quadrinho ficou pronto e eu fui toda feliz buscar pessoalmente (que saudade de encontrar pessoas!) na Butantã Gibicon e até tirei foto com o Ossostortos e guardo a foto com todo carinho do mundo porque olha que pessoas felizes:

Não sei ainda porque, mas só fui ler o quadrinho esse ano, agora na quarentena. E que escolha errada! A gente acompanha Derick numa missão bem Dom Casmurro: começar de novo, depois do recente divórcio, a partir de onde ele começou pela primeira vez. Pra isso, ele se muda pro apartamento onde morou quando jovem e a gente vai descobrindo como foi a juventude dele, assim como suas neuroses e o enfrentamento da vida adulta, muito maior que os fracassos que ele acha que moldam a tal vida adulta.

Derick era vj na MyTv, o que forma logo de cara um ambiente nostálgico pro personagem e pro leitor: Ossostortos insere quadros de programas parecidíssimos com a nossa MTv, bordões que marcaram minha adolescência e músicas, muitas músicas.


Viver em São Paulo, pra mim, é ter trilha sonora pra tudo, desde pra ir ao mercado num dia de chuva, até voltar cansada de tanto andar na Pinacoteca. São Paulo é famosa por não ter amor, mas a verdade é que é uma cidade linda e inspiradora se você souber olhar (medir o olhar, na verdade, mas esse é papo pra outro dia) e as músicas se encaixam no caos paulistano com muita facilidade. E esse é um dos pontos que me conquistou nesse quadrinho: o Thiago vai inserindo trechos de músicas que se encaixam naquele momento da história do personagem e passa pro quadrinho um tom audiovisual delicioso. E agora, nesse momento de pandemia, em que não visito esses lugares há meses, eu não consigo me imaginar neles sem estar acompanhada dessas músicas (e você pode ver abaixo a playlist que eu montei com elas!).


Aliás, não é só nostalgia que aparece nos quadros do Ossostortos. Ter lido esse quadrinho agora me deixou com muita saudade da cidade, dos sons que as ruas são capazes de produzir, das cores que a poluição faz questão de acinzentar, das conversas distraídas que a gente tem enquanto anda sem pressa por avenidas que foram feitas só pra carros (morar em São Paulo e andar por ela majoritariamente como pedestre é o maior ato de rebeldia e inconformismo com o sistema que uma pessoa pode ter). Ele acrescenta imagens da cidade que são apenas panos de fundo pra história e na verdade, um mero detalhe. Eu consigo imaginar qualquer cidade grande naqueles quadros, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Berlim, Nova York. Mas o tom da história é inteirinho paulistano. Se as cores fossem outras ou outros fossem os cenários, o estranhamento existiria e explodiria porque nada é tão paulistano como esse quadrinho.



Essa foi outra leitura extremamente pessoal, me senti conectada e saudosa, senti as possibilidades que a covid-19 está afastando de nós. Mas ao mesmo tempo, eu consigo ver como um cenário de pandemia faria bem ao personagem principal. Estar quieto no próprio canto, mesmo que forçosamente como é nosso caso atual, gera muita ansiedade e momentos deprimidos mas nos aproxima demais ao cerne de tudo. O mundo passa ser o aqui e o agora porque tudo o que existe é o aqui e o agora – sempre os mesmos, não importa o feriado ou o dia da semana. Assim como São Paulo, me pareceu que debaixo da coberta de medo que a doença trouxe, existe um olhar a ser medido. Existe um mundo dentro da nossa casa que é muito pequeno mas não por isso finito em possibilidades. É a nossa chance de começar de novo, justamente a partir do lugar onde tudo passou a dar errado: dentro de casa.

Mas é claro que é extremamente fácil dizer tudo isso no alto da minha vida gostosa, moradora da maior cidade do país, jovem, branca e assalariada, com acesso a centros culturais e produtos alimentares de qualidade, rodeada de pessoas saudáveis física e mentalmente. A vida não é tão simples e sem (tantas) dores pra todo mundo e eu acho que talvez tenha sido isso o que eu mais amei no quadrinho. Ossostortos traz um cara prestes a entrar na meia-idade e já com crises existenciais, um moço completamente perdido e que na falta de se voltar a si mesmo, ouve quem não devia e uma moça que, na espera eterna da melhora de vida, viu tudo passar e é nela que eu penso quando digo que a gente precisa aprender a ver nossos privilégios.


Mas claro que eu não comentei que Mjadra é um prato árabe, feito com lentilha, arroz e cebola frita e que pro Derick, roubou durante anos sua força juvenil. O tom cômico do protagonista é deprimente porque é tão fácil chegar nessa comicidade degradante!

Mas é uma delícia o final que o Ossostortos inventou: um comichão lindo de pura vontade de fazer dar certo. E tem dado: Mjadra, assim como Os últimos dias do Xerife, está concorrendo ao prêmio HQMix (roteirista nacional). E eu, de novo, continuo aqui torcendo.


Aliás, além de torcer, você pode apoiar o projeto de outro quadrinho dele que está no catarse, já nos últimos dias e adivinha: vai ser regado à nostalgia de novo, bem do jeito que a gente gosta. E ah, você consegue ler os primeiros capítulos desse novo quadrinho no instagram dele:

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