• Napolitano como meu pé

Livro | Zero (Ignácio de Loyola Brandão)


Lembro de ouvir meus pais dizerem que não era pra eu ler Ignácio de Loyola Brandão porque ele era imoral. Não lembro quando ouvi isso deles, mas deve ter sido depois dos onze anos, quando eu comecei a ler tudo o que aparecia na minha frente. Na época eu ouvia meus pais em tudo então passava longe de Ignácio de Loyola Brandão. Devo ter lido um ou outro conto dele na minha vida escolar mas sempre sob a supervisão da figura responsável de algum professor.

Acho que cabe uma leve defesa em nome dos meus pais: eles sempre incentivaram as minhas leituras, meus livros livros entravam nas contas de gastos fixos do mês deles, toda vez que algum autor aparecia em entrevista na TV Cultura eles me chamavam pra ver. Exatamente por isso que, quando me bateu uma vontade inexplicável de ler Zero, eu me perguntei o porque dos meus pais nunca terem me deixado ler Ignácio de Loyola Brandão.



Agora vamos lá, na verdade não foi uma vontade inexplicável, mas devo admitir que o timing dos acontecimentos foram perfeitos. Como eu sempre compro livro na Amazon, sempre também aparece propaganda da Amazon pra mim. Não, não vou me desculpar nem tentar me defender por comprar livros na Amazon. Trabalho no mercado editorial mas ainda sou consumidora e gosto de preços baixos. Não, não vou me desculpar por alimentar uma indústria injusta, tô inserida no capitalismo e tenho meus jeitos não-ortodoxos (e talvez inexpressivos, mas oh well) de lutar contra o sistema e nada disso cabe aqui e agora.

Mas enfim. Sempre aparece propaganda da Amazon e depois de algumas compras de livros brasileiros, apareceu a capa do livro Desta terra nada vai sobrar a não ser o vento que sopra sobre ela. Eu que amo títulos e comprar livros pelo título, endoideci. Fui atrás de pesquisar e sim, era um livro do Ignácio de Loyola Brandão. Eu juro que toda essa história vai fazer sentido.



Pesquisando sobre o tal livro, descobri que existem outros dois livros que compõem com ele uma espécie de trilogia. Não que eles sejam uma trilogia ou que se complementem, mas o próprio autor achou que as temáticas deles conversam entre si, então valia a pena ler os três, sendo o Desta terra o último.

Fui atrás dos outros dois: Zero e Não verás país nenhum. Achei os preços salgados e esperei a Festa do Livro da USP (pra quem é de fora de São Paulo: no final do ano algumas editoras se reúnem numa feira na Universidade de São Paulo, onde vendem seus títulos pela metade do preço. No começo era possível achar desconto de até 80%. Mas a metadinha de hoje em dia já ajuda demais, ao consumidor e à editora).



Pois bem, comprei no final de 2019 a trilogia, que veio numa caixinha com a cara do Loyola, o que já me despertou lembranças dos meus pais dizendo que ele era um imoral que não devia ser lido. Hoje em dia eu tenho minha própria vida e leio o que quero, mas a culpa ficou batendo, parecia que eu estava realmente desobedecendo os meus pais. Mas não durou muito.

Porque como eu disse, o timing foi perfeito. Comecei a leitura em janeiro. Uma semana depois começou em São Paulo um movimento de bibliotecas e museus contra a censura, com várias palestras e exposições sobre livros e publicações censuradas no Brasil e no mundo. Eu só fui descobrir isso porque o evento de abertura desse movimento foi justamente um conversa com o Ignácio de Loyola Brandão na Biblioteca Mário de Andrade. Você pode ver uns trechinhos dessa conversa no destaque Zero no meu instagram.


Ele foi chamado pra essa conversa porque Zero foi censurado aqui no Brasil e a verdade é que o Ignácio tem muita sorte por nada ter acontecido com ele na época em que o livro foi censurado.

Zero foi o livro mais diferente que eu já li, nada se compara a ele. O texto tem vários formatos e não segue muito bem uma história. Isso porque, o Ignácio explicou nessa conversa, tudo o que está no livro realmente aconteceu.


O Ignácio de Loyola Brandão é jornalista, trabalhava como editor de um jornal (é pedir demais que eu lembre o nome) quando a censura começou a ser imposta no Brasil. Na época, um censor foi colocado em cada jornal e ele, no papel de editor, precisava encaminhar pra essa pessoa todas as matérias produzidas antes de serem publicadas. Num ato impensado, o Ignácio foi guardando todas as matérias que eram barradas e depois de anos, pensou que era injusto que o Brasil não soubesse, não tivesse acesso, a coisas que aconteceram no Brasil.


Todas essas matérias estavam na casa dele e ele começou a mexer aqui e ali nelas, criando histórias que levassem a elas, ou que partissem delas. No final, sobraram páginas e páginas de histórias reais que ele uniu ao inserir José, o personagem principal de Zero, que faz o livro ficar de pé.


Zero é completamente perturbador, nada fácil de ser lido. A história, se é que dá pra chamar de história, não é linear, e é bem picotada, mudando de tom a cada página, com formatos estranhos.

Foi uma leitura extremamente desconfortável, o próprio texto me incomodou, principalmente porque eu não conseguia entender certos aspectos. As vírgulas são usadas de formas diferentes, dando um ritmo estranho e cortado à narrativa. Em muitos momentos identifiquei erros de digitação no texto e isso me deixava confusa sobre ser proposital ou não.


Porque eu digo isso: quando Zero foi censurado, a circulação tradicional dele não aconteceu. Mas cópias dele foram feitas e passadas de mão em mão. Em alguns lugares fizeram mutirão para digitarem o livro inteiro e distribuírem depois. Por isso, a ideia do livro possuir erro de digitação pode não significar erro da editora, mas uma documentação histórica de Zero no Brasil.

Entretanto, mesmo sendo um livro que adiciona muitas dificuldades durante a leitura, não consigo mais imaginar minha vida sem tê-lo lido. Nas palavras do próprio Loyola, Zero é um instagram da ditadura, cheio de recortes de coisas que aconteciam no Brasil e o governo não queria que ficássemos sabendo. Enquanto lemos, parece tudo absurdo demais. Mas se hoje, em 2020, passamos um dia inteiro na frente da TV, migrando do Bom dia Brasil ao Balanço Geral, do Brasil Urgente ao Programa do Ratinho, ou nos fins de semana, das propagandas do Raul Gil ao Fantástico, a única coisa que passa na nossa frente são absurdos iguais, o que torna o livro concreto e duro demais para ser engolido.


Pra terminar, um aviso somado a outra curiosidade sobre o livro. O final dele é dedicado a relatos de tortura. Um dia o Ignácio foi visitar um amigo da editora Abril e esse amigo mostrou a ele relatos de torturas que chegavam a eles toda semana e que a Abril fazia questão de guardar porque sabiam que futuramente isso seria documento histórico. Esses relatos chegavam escritos em papel de pão, em pedaços de papel higiênico, em todo lugar que pudesse ser escondido. Estão alguns relatos em sua totalidade no livro, bem no final. Não é fácil, eu quase vomitei várias vezes, chorei em todas. São lembranças de um tempo que nunca mais pode se repetir.

Mas eu disse que aquilo ali era o final e me enganei, mas juro que agora é rapidinho. Existia duas opções para uma obra que fosse censurada: censura por motivos políticos ou por ser imoral. Zero tinha todos os motivos do mundo para ser censurado por motivos políticos, o que faria o autor ser exilado, torturado ou até mesmo morto. Mas foi considerado imoral. Quando descobri, entendi porque meus pais chamavam o Loyola de imoral. Me entristeceu como até hoje, uma decisão tomada há anos, impediram uma garota normal de ler um livro.


E agora é com você: sou péssima nisso, então me indica aí algum livro que foi censurado!

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