• Napolitano como meu pé

Livro | Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres (Clarice Lispector)

Há anos eu coloco esse livro da Clarice como meu favorito. Essa foi uma definição que sempre veio muito fácil pra mim, difícil mesmo é falar sobre ele, tentar te explicar porque você deveria ler esse livro.


A verdade é que pensando bem sobre ele, não encontro algo que o faça se destacar no meio da obra da Clarice. Existe A hora da estrela, Amor, A paixão segundo G.H. Cada um com um aspecto muito único. Talvez Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres não tenha algo assim, o que felizmente, não impede meu amor por ele: já li esse livro ao menos 4 vezes de cabo a rabo e é uma leitura nova todas as vezes. E é um livro gostoso de se ter por perto pra relembrar os trechos favoritos, sabe?


Mas eu prometi a mim mesma que eu seria racional e lógica nesse texto, então vamo lá. Lori é uma professora de escola primária que a gente vai conhecendo ao longo da leitura. No começo a gente descobre que ela não está pronta. Pronta para o quê, você me pergunta e na verdade eu não sei. Mas ela não está pronta e a gente descobre isso pelo Ulisses, um rapaz que é o interesse amoroso da Lori (e ela o interesse amoroso dele).


Eu nunca tinha sentido isso, mas nessa nova leitura achei o Ulisses muito arrogante e prepotente ao dizer pra Lori coisas como essa, que ela não está pronta mas que ele vai esperar o tempo que for preciso até que ela esteja finalmente pronta para eles ficarem juntos.


Então o livro é essa espera pacífica e estática do Ulisses que adoça o ser e estar perdido da Lori. E é bem gostoso acompanhar a busca da Lori porque ela não sabe bem o que está buscando, mas a gente vai descobrindo mais dessa personagem de acordo com os mergulhos que ela dá em si mesma. A gente descobre a relação dela com a maquiagem, com os homens, com a família, com o dinheiro, com os alunos, com o ato de dar aula. É tanta coisa que ela acaba se tornando um personagem bem redondo, ensimesmada de um jeito muito bom.


Não é um livro que te entrega tudo bagunçado e você que se vire pra entender. Ele vai com calma, apesar de começar com um ponto e vírgula e terminar com dois pontos. Esse é, inclusive, algo bastante difundido sobre o livro mas que eu acho que vale a pena repetir: o livro inteiro é só um pedaço da vida da Lori. Houveram coisas antes e haverão depois. E acaba sendo também um dos motivos do meu fascínio por ele.


Eu nunca sei se eu estou lendo o livro ou se ele está me lendo. Sei que é uma frase clichê mas foi o que aconteceu comigo em todas as vezes que eu li. Li em momentos muito diferentes da minha vida e isso fez com que a leitura mudasse e trouxesse novas nuanças pro meu relacionamento com a história, mas algo que nunca mudou foi essa percepção de que aquilo ali pode ter sido muito importante praquele casal, mas a vida deles é muito maior do que aqueles momentos em que eles se interligaram.


O livro traz ainda muita coisa que dá vontade de sentar e estudar até destrinchar tudo: a relação dela com o mar e os nomes das personagens que remetem sempre a mitos gregos e russos relacionados ao mar; a filosofia presente no livro que é colocada de uma forma que nas minhas quatro leituras eu nunca peguei de verdade; a relação dela com Deus, o papel da oração na vivência humana, o que é ser, estar e viver e qual a diferença entre esses três verbos na nossa trajetória.


É um livro muito simples e complexo ao mesmo tempo. Você consegue dar pra ele qualquer olhar que ele vai refletir alguma coisa. E ainda por cima vai te fazer voltar os olhos pra si mesmo de um jeito muito gostoso. É, como diz o título, uma aprendizagem virar suas páginas e termina com um prazer gigante de quem fez uma boa viagem. E eu, que prometi um texto racional, vou dar a mim mesma um empate: talvez eu nunca vá saber como falar sobre esse livro.