• Napolitano como meu pé

Livro | Sunset Park (Paul Auster)

Eu sempre quis ler Paul Auster, especificamente A trilogia de Nova York, porque quero demais saber como ele trata a cidade (eu, tão amante de São Paulo, claramente gostaria de saber). E 4 3 2 1, com suas diversas possibilidades de personagens porque o que eu mais amo fazer na vida é pensar nas possibilidades (até parece que vou perder a oportunidade de prestigiar um autor que também faz isso). Mas acabei comprando Sunset Park por dez reais na Bienal de São Paulo e o livro ficou gritando pra mim, não teve como não atender.


Eu sei absolutamente nada sobre Nova York e agora, depois de ler meu primeiro Paul Auster, sei que existe esse bairro, o Sunset Park, para onde o protagonista da história se muda depois de alguns problemas do outro lado do país. Mas as características dessa mudança e a vida que ele levava até então são muito importantes porque denotam o contexto histórico em que se passa este livro e como ele pode se relacionar com o nosso Brasil de hoje.


Pois bem. O romance de Paul Auster se passa em 2008 e você talvez se lembre da crise financeira que assolou os Estados Unidos naquele ano. Miles, um jovem de 28 anos, trabalha para um banco, coletando bens de valor de casas que foram abandonadas por pessoas que não tinham como pagá-las ou pagar sua hipoteca. Delicado e observador, ele fotografa a degradação de um país quebrado.


Com alguns problemas intransponíveis, Miles viaja para Nova York e passa a morar em uma dessas casas abandonadas em Sunset Park, junto a outros três jovens da mesma faixa etária. Cada um convive com dificuldades de um mundo em crise: desempregos e subempregos, aluguéis caros, relacionamentos tortuosos, famílias distantes. Viver em uma casa abandonada foi o jeito que encontraram de conseguir guardar algum dinheiro, viver com certa dignidade e cumprir seus projetos pessoais.


Eu achei um pouco assustador ler este livro aos 28 anos, tendo trocado de emprego há menos de um ano (assim como todos os meus colegas de trabalho), ter amigos desempregados, amigos que ganham pouco, amigos trocando de carreira. É assustador ler sobre um país em que as pessoas estão sem conseguir pagar aluguel e hipoteca quando eu mesma vejo meu aluguel aumentar desenfreadamente e o preço da cesta básica ir para valores estratosféricos, enquanto minha cidade vira um parque de diversões para construtoras que aumentam cada vez mais o valor do metro quadrado e não param de construir (lembrando que estima-se que cerca de 42.000 pessoas moram nas ruas da cidade de São Paulo, enquanto existe a estimativa de 300.000 imóveis vazios na mesma cidade). É ainda mais assustador ler sobre o pai do protagonista, que tem uma editora, se perguntando se o seu negócio aguenta mais um ano.


Comecei a trabalhar em editoras em 2015, como estagiária. Trabalhei em três editoras até agora e nas três eu vi muita gente ser demitida em nome da contenção de gastos. Porque as pessoas não lêem no país em que a gente mora. Porque nosso ensino básico não estimula a leitura e o pensamento crítico. Porque volta e meia aparece a brilhante ideia de taxar livros (como se eu estivesse no twitter, contém ironia).


Ler Sunset Park foi mergulhar na fragilidade do mercado capitalista que anda em paralelo com a fragilidade das relações humanas. Nossas tragédias pessoais acontecem enquanto as tragédias nacionais se amontoam sem dó, principalmente em cima de quem é mais vulnerável economicamente. Foi perceber, que não importa se é 1929, 2008 ou 2022, em Nova York, São Paulo ou Milão, a história é sempre a mesma, os personagens são sempre os mesmos.


Paul Auster acertou neste livro. A escrita fluida, cheia de detalhes que tornam os personagens minimamente redondos, te carregam por um mundo que pode ser qualquer um e quem lê pode ser qualquer personagem que está ali. O que posso dizer, depois de ler meu primeiro Auster é que não tenho certeza se a magia dele me pegou, mas a vontade dos outros livros continuam aqui.


 

A minha edição, como eu disse, foi comprada na Bienal de São Paulo e a razão pelo preço tão baixo era ele estar na seção de pequenos defeitos.


Acontece que o pequeno defeito deste exemplar era ele ter sido doação ao livreiro, como ação da Companhia das Letras para despertar atenção do mercado e dar conhecimento para o livreiro vendê-lo com mais propriedade.


Com o livro foram enviadas duas cartas do editor, uma explicando sobre o livro e o contexto da história, tanto histórico como geográfico. A outra era bem bacana: tinha uma série de perguntas sobre o livro, para o livreiro saber se entendeu a história e lembra de detalhes. Seria legal ter um treco assim pro leitor comum, não?





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