• Napolitano como meu pé

Livro | Onde cantam os pássaros (Evie Wyld)


Jake mora sozinha em uma fazenda e cuida de ovelhas – ovelhas que estão, uma a uma, sendo mortas por algo que não parece ser um animal, ou pelo menos, não mata como um.

O livro já começa com esse mistério que vai perdurar o romance inteiro, se misturando com o passado da personagem principal, revelando aos poucos os segredos guardados por ela.


Onde cantam os pássaros possui uma narrativa magistral e muito cuidadosa que exige bastante atenção do leitor, principalmente nas primeiras páginas. Estamos muito acostumados com tempos cronológicos e foi-se a época em que intercalar personagens contando uma história era algo original. Mas Evie Wyld conseguiu transformar essa forma de narrar em algo completamente novo, particular e admirável.


Onde cantam os pássaros é a vida de Jake dividida em duas: a vida na Austrália – a terra onde os pássaros cantam – e a vida na Inglaterra, ou, se você preferir, o passado e o presente. Eu sei que isso não é nada inovador e eu comentei ali em cima que a narrativa da Evie Wyld é algo legítimo mas acredite em mim, realmente é.

A linha temporal que representa o presente segue a boa e velha ordem cronológica e é bem fácil de acompanhar. O passado, no entanto, exige readaptação do nosso cérebro a cada capítulo porque vai sempre voltando mais e mais para trás. Eu explico: o passado aparece primeiro como a lembrança mais recente da Austrália e vai se movimentando com acontecimentos cada vez mais remotos na vida da personagem principal.



Eu chamaria esse livro de um experimento narrativo que deu muito certo, principalmente porque por mais que a personagem Jake não seja cativante ou profunda, ela desperta interesse e curiosidade, cada ato dela no presente esconde alguma marca do passado que vamos descobrindo muito aos poucos e o mistério das ovelhas vai perdendo a força, não porque a autora se esqueceu dele, mas porque ele já não importa mais diante de tantos momentos responsáveis por mudanças na vida da Jake.

Em momento algum eu me senti representada por ela ou tive por ela afeição e compreensão. O processo de leitura desse livro foi completamente pessoal, senti uma espécie de obsessão pela personagem, querendo a todo custo descobrir os segredos que ela se esforçava para esconder – curiosidade que todas as outras personagens também sentiam. Cada página virada era um movimento de me fazer mais forte que essa mulher que fazia questão de ser a mais forte – foi quase uma briga de ego, que devo admitir, eu perdi.



O final do livro foi considerado aberto por grande parte dos leitores. Eu concordo em discordar: como pessoas, aposto que faríamos muita coisa diferente da Jake, mas se seguíssemos o mesmo caminho, aposto que seria tudo exatamente igual. O que isso tem a ver com o final do livro? Ora, eu te pergunto: quem você seria hoje se as escolhas que você fez no começo do ano passado tivessem sido outras? A Jake tomou suas decisões e soube ter coragem para escolher como lidar com as consequências dolorosas e infelizmente, a morte das ovelhas, que fez tanta gente se apegar ao livro, foi culpa apenas dela e ela sabe disso. Não, isso não é spoiler. Se for spoiler, é da vida: o que plantamos hoje vai ser colhido lá na frente e o presente que lemos em Onde cantam os pássaros é justamente isso, a colheita da personagem principal. As ovelhas não importam. As decisões da Jake adolescente sim.


Entretanto, passados alguns meses desde a leitura, a história da personagem perde força, assim como o livro na memória. Pra mim, ele se tornou um daqueles livros que eu não recomendaria que fossem comprados, o que é algo poeticamente bom: pegue emprestado, crie vínculos, visite bibliotecas.

De qualquer forma, aproveite a leitura e não se apegue ao que os tempos verbais dizem.



Ah, antes de ir embora: todas essas fotos foram feitas por mim e pelo Cama de Rato no parque Ibirapuera 🙂


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