• Napolitano como meu pé

Livro | O falecido Matias Pascal (Luigi Pirandello)

Eu penso bastante no caminho que a gente faz e que influenciam as coisas que acontecem na nossa vida, mas nada muito místico ou filosófico, fica tudo no campo do acaso mesmo. As coisas vão acontecendo e quando eu vejo, tudo rolou dentro de um labirinto antes de finalmente acontecer de forma completa e esse labirinto fez todo o sentido no final (devo confessar que estou escrevendo isso logo depois de assistir pela segunda vez o último episódio da segunda temporada de Dark, um dia antes da estreia da última temporada, então estou sim predisposta a acreditar que as coisas acontecem como e quando devem acontecer).



Digo isso porque quando comecei a estudar italiano na faculdade, quis já sair lendo tudo o que pudesse, então fui à biblioteca e peguei uma edição italiana de O falecido Matias Pascal. Ao registrar o empréstimo, o bibliotecário comentou que eu ia adorar o livro, que ele era super divertido.

Mas eu não li.

Uns dois anos depois, já lendo e falando muito melhor, tive na faculdade, dentro do curso de italiano, uma matéria sobre a literatura italiana da primeira metade do século XX e dentro do curso, aprendemos sobre a figura do homem inepto, um personagem característico dessa época na Itália e na obra do Pirandello. Antes disso, tive que ler também dele o livro Um, nenhum e cem mil, que acabou sendo a porta de entrada para a obra do autor siciliano.



Fui continuando o curso e lendo livros além dos solicitados na sala de aula, até que finalmente cheguei de novo no O falecido Matias Pascal. E realmente gostei do livro, viu? Mas quando peguei nele pela primeira vez, não teria entendido alguns detalhes que fazem dele uma obra tipicamente pirandelliana e muito menos outros pormenores muito característicos da literatura italiana do século XX. E enquanto eu passava minhas anotações a limpo, encontrei um trecho que me fez pensar muito em como Pirandello se encaixa na história política italiana.

Aliás, ainda em tempo, eu digo tudo isso porque realmente estudo italiano, né? Não conhecer a história ou a literatura italianas não vai tirar seu prazer de ler esse livro, mas aumentou muito o meu!

E eu falei um monte e não disse nada sobre o livro, né? Pois vamos lá:



Matias Pascal é o personagem principal do livro e como dá pra perceber pelo título, ele morre. Inclusive, logo no primeiro capítulo ele já avisa que morre duas vezes! Eu adoro quando os autores já avisam assim algo que vai acontecer lá na frente porque a gente fica curioso pra continuar lendo mas quando a coisa que ele avisou acontece, a gente fica surpreso porque nunca lembramos do aviso. Ou isso só acontece comigo?

Pirandello tem um jeito muito dele de escrever, de deixar as coisas meio cômicas, daquela forma que a gente acha graça mas não ri ao mesmo tempo em que é absurdo demais até pro que você tá lendo, sabe? E o Matias parece mesmo ter sido criado justamente pra isso (inclusive, isso tem nome mas como eu não sei direito do assunto, vou deixar pra falar disso depois). Ele se engraça (meu deus, ainda se usa essa palavra?) com uma moça e a engravida. Uma série de acontecimentos depois, ele se casa com ela e precisa dar um jeito de ganhar dinheiro já que agora é pai de família, né? Pois bem, vira bibliotecário sem nunca ter lido um livro e acha mesmo que por ser bibliotecário precisa passar os dias a ler e fica num ciclo vicioso de achar que é esse seu dever e não querer se dobrar a ele.



Depois de certo acontecimento, Matias foge para Monte Carlo e acaba ganhando bastante dinheiro nos cassinos. Volta pra casa pensando que essa grana vai ser ótima pra deixá-lo um pouco mais livre das obrigações que ele tanto odeia, mas no caminho, se depara com um jornal da sua cidade e descobre que ele foi dado como morto: encontraram um corpo e identificaram como sendo ele.

Matias encara essa situação como sendo uma boa oportunidade pra realmente deixar pra trás a rotina de bibliotecário, a relação problemática com a sogra e o casamento que vai de mal a pior. Se muda para Roma e assume para si uma nova identidade: Adriano Meis.

Acho que não cabe dizer muito mais do que isso sobre a história.


Esse é um livro bastante filosófico, explora muito o conceito de liberdade e brinca com a fluidez desse sentir-se livre. Entretanto, quando a gente pensa em tudo o que o Matias passou pra terminar como terminou, nos perguntamos se não existia um caminho mais fácil. E é aqui que entra a figura do homem inepto. Mas eu vou falar sobre isso num texto específico mais tarde.

Além disso, é muito gostoso ler algumas passagens em que os personagens conversam sobre a energia elétrica e a modernidade que chega rápida, trazendo liberdade mas também a dependência dela (quem nunca se sentiu frustrado quando a rua ficou sem energia, né?).

O falecido Matias Pascal é, pra terminar por aqui esse texto, um livro com uma história incrível e muito bem contada, com questionamentos filosóficos que eu nunca faria sozinha e que coloca em cheque a liberdade que a gente sente ou talvez, a nossa capacidade de nos sentirmos livres. Se você se interessou por esse livro, talvez vá gostar também de Um, nenhum e cem mil e se quiser ler alguma peça de teatro do Pirandello, Enrico IV é bem legal pra começar!

Mas se quiser saber mais algumas coisinhas sobre o Matias, aguenta firme que logo mais eu volto aqui com ele.

Ah, uma última coisa: li esse livro em italiano e como O falecido Matias Pascal foi publicado em 1904, algumas grafias estão diferentes do que a gente tá acostumado e algumas expressões eu nunca tinha visto. Uma comparação legal que eu fiz na minha cabeça é que Machado de Assis publicou Dom Casmurro 5 anos antes e a gente estranha bastante a linguagem do livro quando lemos pela primeira vez. Então fica a dica pra ir com calma que no final dá certo!

Mas se você não lê em italiano e quiser ler em português, procurei na Amazon e encontrei essa edição em português:


#LiteraturaItaliana #LuigiPirandello