• Nati Aguilar

Livro | Nas tuas mãos (Inês Pedrosa)

Eu já comentei algumas vezes no instagram que quando consigo, participo de um clube do livro que chama Café Literário e uma das minhas resoluções pra 2020 era participar mais esse ano, principalmente porque a programação está incrível!


O livro do mês de março era o Fazes-me falta da Inês Pedrosa e como eu nunca tinha lido nada dela, quis participar. Nunca falo sobre essas coisas por aqui (e talvez devesse) mas prometi não comprar livros esse ano (salvo em situações de muita exceção) e no lugar disso, visitar mais bibliotecas. Então passei o final de fevereiro inteiro indo de biblioteca em biblioteca procurando o livro pro encontro. Não tinha em lugar nenhum.

Como os encontros do Café Literário acontecem na Biblioteca Mário de Andrade aqui em São Paulo, resolvi que lá seria o último lugar a procurar e, parada na frente da estante de literatura portuguesa, encontrei vários títulos da Inês, mas nenhum Fazes-me falta. Fiquei olhando pra cada um deles, peguei todos na mão e não sei explicar porque escolhi o Nas tuas mãos pra ser lido, mas foi a melhor escolha pro momento.



Nas tuas mãos traz três diferentes mulheres de uma mesma família, que dividem de forma muito íntima com o leitor sua relação com a outra e com o próprio país. Também de diferentes gerações, a narrativa dividida em partes escancara as lutas políticas de Portugal e de países que eram colônias portuguesas até pouco tempo.

Como as narrativas são construídas na primeira pessoa e a partir de relatos muito pessoais das personagens, a gente tem acesso a dramas familiares, emocionais e políticos de cada época, o que me fez achar Nas tuas mãos um livro muito completo. A linguagem é extremamente poética, de uma leveza até assustadora em momentos que antes eu achava que só poderiam ser narrados com palavras ásperas. Toda essa poeticidade e leveza do texto, fizeram desse livro uma leitura fácil, rápida e muito gostosa.


O livro, então, é dividido em três partes: O diário de Jenny, O álbum de Camila e As cartas de Natália, respectivamente avó, mãe e filha. Logo de cara eu me preocupei porque acho muito difícil encontrar livros que conseguem separar com sucesso a voz e estilo dos personagens. Eles sempre se misturam, as personalidades se mesclam e no final a gente só sabe quem está narrando por conta do nome presente no capítulo. Mas não foi assim com Nas tuas mãos. Cada personagem tem uma voz muito clara e um jeito muito pessoal de viver a vida. E a forma como a Inês Pedrosa escolheu montar o livro ajuda muito nisso também.

Como comentei ali em cima, cada personagem detém a narração de uma parte do livro e cada parte possui um estilo literário levemente diferente do outro porque são tipos diferentes de texto : um diário, um álbum de fotografias e cartas. Mas mesmo nisso a Inês me surpreendeu porque ela não escreve esses textos das maneiras engessadas com que estamos acostumados. O diário de Jenny, por exemplo, não traz em suas entradas a anotação do dia ou do ano em que ela escreveu, nem descrições dos seus dias. É um diário em que ela faz o falecido marido de interlocutor, conversando com ele sobre sua relação com a filha e com a neta, além de referir acontecimentos do seu cotidiano com outros da época que o marido ainda era vivo.


É assim que a gente vai se interando aos poucos da dinâmica familiar das três, a começar sabendo que esse casamento foi concebido para ser apenas fachada a fim de possibilitar um relacionamento amoroso entre o marido dela e outro homem. Aqui começa uma descrição dolorosa do que era a convivência pacífica dessa família frente a uma sociedade homofóbica. Na verdade, a dor dessa leitura cresce bastante se você é sensível em perceber o quanto a Jenny foi capaz de se deixar de lado e até se negligenciar em prol da felicidade de outras pessoas. O amor dela é genuíno e o triângulo que eles formam é forte de um jeito que eu nunca tinha visto em lugar nenhum.

A segunda parte, por sua vez, intitulada O álbum de Camila, explora a vida dessa personagem que já não começa muito tradicional. A forma como ela se liga à Jenny e ao mundo é muito sensível e até frágil, porque vai se modificando a cada golpe da vida. Camila é fotógrafa e sua narrativa começa com descrições de suas fotos e a partir daí, suas lembranças falam em voz alta todo o sentimento que foi guardado em cada apertar de botão. Camila sempre buscou seu lugar no mundo e a luta política foi parte natural disso. É através dela que a gente percebe como a história de Portugal não está desvinculada da história de Moçambique, por exemplo.


Aqui no Brasil a gente para de saber de Portugal depois da nossa independência e realmente a partir de 1822 a nossa História perde o interesse pela História de Portugal e segue outro caminho. É inclusive estranho pra gente, pensar que depois* da luta pra sair do regime ditatorial de Salazar em 1974, Portugal sofreu com revoluções em países que ainda eram suas colônias. Camila narra um pouco dessa história recente e intrincada porque sua própria história se mescla com a independência de Moçambique e o texto dela é bem diferente do texto da Jenny. Possui a poeticidade da mãe mas uma narrativa quase fotográfica pras cenas. É uma delícia perceber que onde o olhar da Jenny perdeu a filha, o nosso agora consegue acompanhar a partir da própria Camila.

Já a vivência da Natália no mundo, assim como seu olhar pra ele, consegue ser uma mistura muito equilibrada daquele da mãe e da vó. Sua luta feminista é diferente das outras duas, assim como sua resistência como ser político. Ela é minha personagem favorita e uma conexão que começou pelo nome foi se aprofundando conforme fui conhecendo a personagem. A Natália é a personagem mais próxima de mim geracionalmente falando e apesar de nem sempre concordar com o modo de vida dela ou a forma que ela encara a profissão e o amor, eu me vejo facilmente repetindo os atos dela, quase como se a Inês Pedrosa conseguisse colocar numa única personagem a essência de toda uma geração de mulheres.


É interessante ainda, perceber como eu não teria a força que a Camila teve pra viver o que viveu, ao mesmo tempo que eu julguei bastante certas decisões tomadas por ela, exatamente como a Natália fez. E ainda conseguia sentir uma simpatia absurda pela Jenny, o que ajudou a me afastar da Camila, novamente como a Natália.

Como eu disse, achei esse romance extremamente completo porque a Inês conseguiu inserir sensibilidade pessoal e força mútua nas palavras dela, numa história que é até simples se a gente pensar friamente, mas que vai se embaraçando ao poucos, até que todos estejam trançados. Além da história de Portugal tão bem contada nesse livro, a autora consegue trazer pro primeiro plano as dificuldades de relacionamento presente nas famílias, as distâncias impostas pelo tempo e os segredos que quanto por mais tempo são guardados, mais perdem o sentido pra quem vem depois.


De minha parte, quero ainda mais ler Fazes-me falta agora. Se achei Nas tuas mãos tão bom e mesmo assim ele não foi escolhido para o clube de leitura, imagina o quão maravilhoso ele deve ser?


*PS: meus conhecimentos históricos de Portugal são quase nulos, de forma que não sei exatamente se depois ou concomitantemente.

#InêsPedrosa #LiteraturaPortuguesa

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