• Napolitano como meu pé

Livro | Não me abandone jamais (Kazuo Ishiguro)



Publicado em 2005, Não me abandone jamais é um livro cheio de perguntas que se formam ao longo da leitura e são respondidas sem pressa pelo autor. Essa característica do livro dá um ar de mistério à história e insere o leitor numa Inglaterra dos anos 90 cuja sociedade é superficialmente idêntica à nossa, mas que desperta profundo estranhamento em quem lê.

Esse estranhamento aparece sobretudo a partir da forma escolhida pelo autor para narrar a história. Escrita em primeira pessoa, acompanhamos a vida da Kathy que descreve com saudosismo sua infância em Hailsham, o colégio mais famoso da Inglaterra nessa sociedade. Acontece que a Kathy é uma cuidadora há mais tempo que o considerado normal e alguns de seus amigos são doadores.


A Kathy vai contando a história e descrevendo os alunos de Hailsham como diferentes ou especiais, sem nunca explicar exatamente o porque dessa distinção. Mas lentamente vamos percebendo que nem mesmo esses alunos sabiam que eram tão diferentes das crianças de fora.

O que ficamos sabendo com clareza ao longo da leitura refere-se à rotina dessas crianças, suas estripulias, relacionamentos e como seu papel na sociedade foi se definindo com mais nitidez conforme cresciam e quando nos damos conta do que exatamente significa cada um desses papéis, uma verdade assustadora se revela sobre a nossa própria realidade e a teimosia do ser humano em se manter vivo.



Não me abandone jamais é uma narrativa que exige paciência: começa e termina devagar, sem precipitações. Assim, Kazuo Ishiguro constrói uma história cheia de detalhes e personagens intensos, em que cada acontecimento existe por uma razão.

Muita gente se queixa que a narrativa do autor é lenta demais e que a história da Kathy não cativa tanto, e realmente, em vários momentos a leitura se torna não arrastada, mas cansativa, principalmente porque alguns pontos parecem muito mais dramas adolescentes do que uma trama única e sólida.


Entretanto, Ishiguro não deixa nada solto e conforme a leitura avança, vamos percebendo a importância de cada cena escrita e o resultado final é um livro que permeia a distopia e a ficção científica, com fortes críticas à história da humanidade e ao futuro que estamos construindo.

Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasaki e ainda criança se mudou para Inglaterra e Não me abandone jamais foi seu penúltimo romance e o segundo a ser adaptado para o cinema. Além de escritor de romances, Ishiguro também escreve contos e roteiros para filmes e atualmente trabalha numa possível graphic novel.


Em 2017, Ishiguro recebeu o prêmio Nobel de literatura pelos seus romances que, com grande força emocional, revelam o abismo sob o nosso ilusório sentido de conexão com o mundo.

Na ocasião, o autor disse ter pensado que a notícia era uma das fake news que rolam por aí e só acreditou quando repórteres começaram a aparecer aos montes em sua casa, pedindo entrevistas.


Publicado no Brasil pela Companhia das Letras, Não me abandone jamais está agora em sua segunda edição, que é essa aí que vocês estão vendo nas fotos. O corte de suas folhas é colorido, e a capa metalizada, com a ilustração de um homem vitruviano que traz em sua simplicidade, a ideia central da obra.

É uma edição simples e sem firulas, apenas o texto integral. Entretanto, não recomendo que você leia as orelhas do livro, a não ser que queira receber o maior spoiler da história.


OBSERVAÇÕES E AGRADECIMENTOS


  1. Algumas informações que eu apresento nesse comentário literário foram fruto de pesquisas e comparações de notícias. Pra verificar tudo isso, você pode clicar nesse link que vai te redirecionar para um documento do google drive e verificar os links de onde eu tirei cada informação. (link: https://docs.google.com/document/d/1sjzyNDEEPdNvh8G4sR5zjDmiQmAuF3UGwvXEtv6VhJc/edit?usp=sharing)

  2. As fotos desse comentário literário foram feitas com a ajuda da Glizia que também é uma leitora ávida. Você pode encontrá-la no instagram e a partir daí conhecer o trabalho dela no user @chocoreads.

  3. Ainda sobre as fotos, fomos ao parque Vicentina Aranha montá-las. O lugar já foi um hospital e eu achei que o clima combinava bastante com Hailsham. Vale a pena a visita.

#KazuoIshiguro #LiteraturaInglesa