• Nati Aguilar

Livro | Meninos sem pátria (Luiz Puntel)


Brasil, 1972. Zé Maria é um jornalista político numa época em que a democracia brasileira não existia.

De 1964 a 1985 o Brasil viveu o que é chamado regime militar. Regime aqui é sinônimo de governo e militar significa que quem governava era a classe militar brasileira. Entretanto, o nome ditadura militar nomeia melhor esse período da história do Brasil, porque uma ditadura é um governo que possui autoridade demais numa única pessoa ou grupo de pessoas e que suprimem muitos direitos individuais dos cidadãos para manter esse poder.


No caso do Brasil, chamar esses vinte anos de ditadura militar significa lembrar que durante esse tempo não houve votações para presidente no Brasil. De modo geral, o brasileiro não tinha liberdade para escolher seus representantes. Eu digo de modo geral porque existiam sim eleições mas elas eram menores e não interferiam em nada na vida do cidadão e ocorriam apenas para dar a falsa sensação de liberdade para os brasileiros, ou seja, todo o poder foi retirado da mão do cidadão brasileiro. Inclusive, esse método de ter pequenas eleições e eleições indiretas é uma estratégia bem comum em ditaduras. Em tempo: eleição indireta é quando apenas um pequeno grupo de pessoas pode escolher os representantes de uma quantidade de pessoas muito maior.


O jornalismo brasileiro dessa época era bem precário porque só podia aparecer nos jornais, rádio e tevês aquilo que os militares – os que estavam no poder – deixavam aparecer. Tudo o que questionava o governo ou era considerado comunista, eles não deixavam ser publicado. Assim, não podia tocar no rádio qualquer tipo de música ou aparecer qualquer coisa na televisão. Falando especificamente dos jornais impressos, era bem comum os editores inserirem receitas de bolo no lugar de uma matéria que não pôde ser publicada. Censura é o nome que se dá a esse movimento de impedir que a população tenha acesso a certos conteúdos. Se vocês quiserem, eu posso aparecer de novo falando de livros, filmes, novelas, músicas e programas de rádio que foram liberados pela censura e os que foram proibidos por ela.

Esse foi um breve resumo sobre a época em que a história do livro Meninos sem pátria se desenrola. É importante saber de antemão o contexto histórico desse livro porque Luiz Puntel, o autor dele, não dá lá muitas informações sobre ele e o leitor desinformado pode ficar um pouco confuso com os acontecimentos da história.


Então, voltando ao início do texto: o ano era 1972 e o Zé Maria era jornalista político. Na verdade, ele era jornalista, o político fui eu que coloquei porque ele se recusa a retirar do jornal as matérias que escreve questionando o governo e desmascarando as torturas que aqueles que se opunham à ditadura passavam. Com isso, os militares responsáveis pela cidade onde Zé Maria morava começaram a fazer ameaças de morte a ele e à família dele.

Um dia eles cansam de fazer ameaças e entram no prédio para prendê-lo, mas Zé Maria consegue fugir e então a gente vai acompanhar a história a partir da ótica do Marcão, o filho mais velho de Zé Maria e como ele e a família precisou fugir do Brasil para poder sobreviver.


A América Latina inteira estava passando por momentos difíceis nos anos 70 e por conta disso, a família de Marcão precisou fugir do Chile e da Argentina também, indo se refugiar na França em 1973.

Outra vez tendo que reconstruir a vida num país de cultura e língua diferentes, Marcão e seus irmãos começam a se esquecer de como era o Brasil, a vida, comida e língua brasileiras, não sabem nem o ritmo do hino nacional. As únicas coisas que sabem da própria origem são algumas poucas músicas que os pais ouvem e os nomes dos jogadores de futebol.


O título vai ser explicado nesse momento ao apresentar para o jovem leitor que por conta da falta de democracia em diversos países nessa época, várias crianças precisaram se refugiar em nações alheias, sendo mal vistas pelos cidadãos que os receberam, esquecendo como se comunicar na língua materna e se sentindo sem uma casa fixa ou lugar no mundo pois a qualquer momento eles podem precisar fugir.

Meninos sem pátria é um livro de narrativa e história simples e que de forma singela ensina a fragilidade da democracia, da gentileza e da diplomacia. E mostra com exemplos práticos o papel de um professor na autoestima de uma criança e as formas saudáveis de inflar o amor à pátria nos corações humanos.


Agora, no início do vídeo eu comentei que durante a ditadura militar brasileira se havia a desconfiança de que algo fosse comunista, esse algo era censurado – no caso de matérias jornalísticas, livros, músicas, novelas – ou preso e muitas vezes torturado – no caso de pessoas.

Comunismo é o nome que se dá à uma ideologia de vida política sem diferenças sociais e propriedade comum dos meios de produção. Isso significa que a URSS era comunista e a Cuba ainda é, embora hoje em dia seja uma ideologia mais fraca e em plena derrocada. Aliás, apesar da China ser governada pelo Partido Comunista, sua sociedade é socialista.


O Brasil nunca esteve perto de ser comunista. E hoje em dia, 2018, nunca esteve tão longe. Ainda assim, Meninos sem pátria foi impedido de ser lido em uma escola do Rio de Janeiro porque alguns pais disseram que ele traz ideias comunistas.

Eu não consegui entender essa explicação que eles deram e ninguém me perguntou, mas resolvi trazer mesmo assim uma defesa ao livro. Comunismo, como eu disse, é a ideia de uma sociedade que não tenha diferenças sociais, ou seja, todo mundo teria o mesmo poder de compra e as mesmas oportunidades de estudar em uma boa escola e ser atendido por um bom médico. E isso não é ruim, pelo contrário, essa ideia é muito boa. Entretanto, o comunismo também defende a propriedade comum dos meios de produção, ou seja, pertenceria a todos o celular mais caro, o computador mais caro, a melhor comida, o melhor lugar para se viver. Mas pra isso acontecer, é necessário um bom plano governo, aceitação e participação da população, sociedade sem roubos entre governantes, de forma que a divisão igualitária seja válida, real e proveitosa para todos os indivíduos. Até hoje, nenhum governo conseguiu ser comunista sem ser extremamente pobre ou democrático, então nesse aspecto o comunismo é uma péssima ideia.


Se você for pensar um pouco nessa explicação sobre o comunismo e lembrar do livro Meninos sem pátria, vai perceber que o livro não tem absolutamente nada de comunista. Ele defende a democracia, que preciso dizer, nenhum governo comunista teve. O livro defende a liberdade de expressão, outra coisa que o comunismo nunca teve quando posto em prática. O livro defende a livre circulação de pessoas e bens que o comunismo de novo, nunca teve.

Então me explica, o que tem de comunista nesse livro?

Quando eu pesquisei no Google a palavra comunismo, apareceu que é uma ideologia política que defende uma sociedade igualitária e apátrida. E aqui está o pulo do gato.

Os meninos sem pátria eram apátridas do mesmo jeito que Hannah Arendt e muitos judeus durante a segunda guerra mundial eram apátridas. Eles não possuíam pátria porque se eles voltassem para a pátria, a pátria os mataria. O comunismo defende uma sociedade apátrida por livre e espontânea vontade. Zé Maria, Tererê, Marcão, Ricardo, Pablo e Nicole, os personagens do livro, não escolheram ser apátridas, eles não gostariam de ser apátridas. Inclusive eles voltam a ter pátria no final do livro e com muito orgulho. Porque apesar de isso ser um spoiler do livro, no final do regime militar brasileiro é concedida a anistia para os brasileiros exilados, ou seja, não é spoiler nenhum.


Hoje em dia estamos vivendo um período muito difícil em que o comunismo voltou a ser o grande vilão mesmo sem estar entre nós.

Entretanto, estão colocando na conta do comunismo qualquer coisa que saia do centro e da direita política, mesmo que seja algo que, como o livro Meninos sem pátria, seja só a lembrança de tempos terríveis para o livre pensar. E digo lembrança não só pela obra de ficção porque a história contada no livro é baseada no que realmente aconteceu na vida do jornalista José Maria Rabelo. Não é só ficção. E saber desses acontecimentos somente pelos livros de história do ensino médio não torna o período de ditadura militar no Brasil uma ficção.


A minha edição de Meninos sem pátria foi publicada em 1988 e faz parte da série Vaga-lume, responsável pela publicação de diversos títulos infanto-juvenis com histórias simples, eletrizantes, questionadoras e que hoje acredito realmente que já podem ser consideradas clássicas. Eu lia a série quando tinha meus 12 anos com a mesma avidez que leio hoje e a ela foi a grande responsável pela leitora e profissional do livro que eu sou hoje.

Atualmente ainda é possível encontrar o livro em sebos e em livrarias (existe uma nova edição de 2016 ainda da série Vaga-lume).

Espero que você possa se despir de toda ideia pré-concebida e leia esse título com olhos abertos e atentos, capazes de perceber que sim, \”ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais\”.

#LiteraturaBrasileira #LuizPuntel

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