• Nati Aguilar

Livro | Baseado em Fatos Reais (Delphine de Vigan)

Até onde a ficção nos leva a imaginar o que seria a realidade que um autor está descrevendo com tanta desenvoltura para que não percebamos que aquela história inventada é uma realidade? Quer dizer, para alguns livros é fácil compreender de onde vêm as inspirações para que histórias sejam escritas, mas, mesmo sabendo que alguns fatos são reais, até onde a ficção não é apenas mais uma realidade que não sabemos como consumir?

Até onde a autobiografia é uma história crua, a famosa \”nude da alma\” de pessoas famosas, e aqui focarei em escritores, e até onde não pode simplesmente ser um amontoado de histórias aumentadas para que essa pessoa em foco seja vista como uma pessoa muito interessante e diferente e se destaque na multidão?


Acredito que essas são as dúvidas principais ao lermos o livro Baseado Em Fatos Reais, lançado em 2015 pela Delphine de Vigan, uma escritora francesa que ficou muito conhecida após publicar Rien ne s\’oppose à la nuit (na tradução livre \”Nada fica no caminho da noite\”), que conta a história de uma família que lida com uma mulher que possui transtorno bipolar com episódios de mania. Ela ganhou muitos prêmios por conta desta obra, e então se viu tendo que se superar em sua obra prima.

A ideia assombrosa de precisar se superar depois de algo tão visceral para ela a deixou com um bloqueio para a escrita. Ela agora tenta passar um tempo com os filhos, que estão se mudando para a faculdade, com o namorado que é um crítico literário que viaja muito, e suas amigas francesas. Qualquer coisa que a fizesse não pensar que precisava escrever algo melhor que seu último livro.



Mergulhamos nessa história onde Delphine (a personagem? a autora?) conhece uma mulher que ela chama de L. em uma festa com várias pessoas inseridas no meio literário francês. L. é essa mulher perfeita, com cabelos bonitos, roupas e um corpo bonito. Ela trabalha como ghost writter e mora no prédio em frente ao prédio de Delphine.

Logo elas criam esse laço afetivo onde Delphine se vê completamente à mercê de L. A mulher sabe como manipular a situação para que todos concordem com ela, e sempre está discutindo com Delphine sobre a próxima obra que ela precisa escrever e o que é necessário que tenha nesse próximo livro, ao ponto de deixar a mulher sufocada.



É como ler Misery: Louca Obsessão mas se sentir lendo O Bebê de Rosemary: você não consegue entender realmente o que está acontecendo porque essa é a visão da narradora, que é também a personagem principal. Então até onde sabemos o que realmente aconteceu e o que na verdade foram só momentos onde Delphine só queria jogar a culpa de não conseguir produzir para outra pessoa.

A melhor parte do livro foram as discussões entre as amigas sobre o que um leitor espera de uma leitura, o que é desejado para aquele que consome livros e como um autor pode satisfazer essa necessidade de consumo de histórias que sejam reais.

E, veja, eu discordo com muitas coisas sobre L. Ela fala sobre como o leitor sempre espera a verdade, mas não a verdade como \”o que realmente acontece no mundo\” mas a verdade do autor. Eu tenho um problema com isso, porque como leitora não sinto que é isso que eu espero de uma leitura. Claro que, em um livro como este, eu fico curiosa com o que aconteceu com a autora e o que não aconteceu, mas em ficção eu não espero que existam coisas que realmente aconteceram com autores.

Gosto de autores que chegam com perguntas \”e se?\” e então criam uma narrativa em cima de várias situações possíveis e impossíveis que podem ou não ser elevadas até o mais extremo. Ainda mais quando mudam algumas regras do mundo, ou transformam em outro mundo ou outra realidade. Eu não tenho essa visão de que apenas livros que mostrem o \”nude da alma\” do autor são verdadeiros e possuem histórias significativas. Todos os livros podem ser assim.



Para quem está com saudades de ler um suspense onde você fica perdido em o que é ficção e o que é realidade, esse livro é leitura essencial.

#BaseadoemFatosReais #DelphinedeVigan #LiteraturaFrancesa

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