• Nati Aguilar

Livro | Atlas de Nuvens (David Mitchell)

Eu tenho uma paixão muito grande por livros quando eu vejo alguém tão apaixonado por uma história me contar sobre essa história. É como se, de repente, esse sentimento passasse para mim e eu sentisse exatamente a mesma coisa sem nunca ter lido. E foi isso que aconteceu comigo e minha história com Atlas de Nuvens.


Quando eu ainda era um membro do booktube eu gostava de acompanhar o saudoso canal WellDoneBooks, do Maxwell Dunn. Em um vídeo dele ele falava sobre como tinha adorado o formato desse livro e sua colagem e então como tinha sido divertido ler essas histórias e que guardaria esse livro com carinho em seu coração. Algo na forma como o Max descrevia o livro me fez morrer de vontade de ler. Isto deve ter acontecido entre 2013 e 2015. Mas demorei muito tempo para conseguir comprar o livro sem fazer um buraco enorme no meu cartão de crédito. Porém foi uma de minhas melhores compras literárias.

A experiência de ler este livro é única e agora eu entro em uma jornada pessoal de procurar mais livros que tenham esse formato escrito por outras pessoas, já que David tem um livro de 1999 chamado Ghostwritten, onde acompanhamos nove personagens em nove cidades.. Temos seis histórias de seis personagens e essas histórias são consequência uma da outra. Funciona da seguinte forma: lemos as primeiras metades de todas as histórias de todos os personagens e depois lemos as metades finais da história da mais recente para a mais antiga.

  1. Diário de Adam: um advogado que viaja para uma Ilha do Pacífico em 1850.

  2. Cartas de Frobisher ao amante: um jovem músico que é deserdado da família em 1931

  3. O Romance Policial de Luisa Rey: uma jornalista que investiga uma conspiração contra uma usina nuclear em 1975

  4. A história de Timothy Cavendish: Um editor que está lendo o livro de Luisa enquanto acaba preso em um asilo para idosos.

  5. A entrevista de Somni-451: uma entrevista com uma clonada num futuro distante

  6. O Causo de Zachary: um homem que vive no mundo pós apocalíptico e acredita que Somni-451 é uma deusa.


Cada história possui uma forma diferente de nos ser apresentada e em vários momentos eu me sentia, de fato, lendo algo de época, um romance policial, um livro de cartas, um livro biográfico, uma entrevista e também lendo um causo. Seus personagens são únicos ao mesmo tempo que acreditei que são um pouco genéricos. Adam e Frobisher, por exemplo, são o padrão de comportamento do homem hétero cis normativo e branco. Mas cada um deles ainda possui uma personalidade própria e eu consegui sentir que David realmente se dedicou para nos entregar histórias de qualidade nesse livro.

Chega até a ser cômico pois, quando cheguei na história de Somni eu realmente me senti lendo aqueles livros de ficção científica mais antigos, que acreditavam que nossa sociedade viveria maus bocados ao ponto de não sabermos lidar tão bem com a tecnologia e que modificamos muito nossa forma de ver o mundo por causa dela. Então um texto de 1963 e um de 2005 possuem ideias similares.

Na verdade, foi por esse único motivo que não dei nota máxima. Apesar do livro ser publicado em 2005, senti como se estivesse lendo um livro antigo, escrito antes mesmo da guerra fria de fato começar a demonstrar os avanços científicos. Senti falta, em vários momentos, de uma visão mais moderna em sua escrita, chegando ao ponto de ficar em dúvida que um personagem ser machista, homofóbico ou racista é apenas por conta da época, ou seja, por conta da estética de cartas escritas no passado, ou se isso é algo do próprio autor em sua obra.

Isso fica ainda mais claro quando chegamos na história de Zachary: a humanidade se perdeu tanto que os sobreviventes não sabem mais ler ou escrever. Não só são analfabetos mas, pela escolha da forma como a história está sendo contada para o leitor, eu me vi diante de um preconceito linguístico muito forte.

A ideia de que, no futuro, iremos perder letras que não possuem sons em algumas palavras (Hora virar ora, História virar istoria) eu consigo aceitar. Mas então temos o adicional de um vocabulário muito caricato de uma figura que vive no interior cheia de maneirismos e erros na própria fala por conta dessa falta de vivência na \”cidade\”. É como se, no futuro, todos falaríamos como o Chico Bento e não como seu primo da cidade.

Eu não consigo conceber muito essa ideia por um simples motivo: mesmo que estejamos adicionando estrangeirismos cada vez maiores na nossa língua (o tanto de palavras em inglês, espanhol e agora coreanas que iremos adicionar por conta de movimentos de consumo de entretenimento que é globalizado…) eu até compreendo quem sempre discute a adição de palavras de outros idiomas na nossa vida cotidiana. Mas eu não consigo ver uma sociedade que sempre preza pela norma culta se adaptar ao ponto de prezar pela estética do \”personagem do interior do Brasil descrito durante a década de 50 na literatura brasileira\”. Acredito muito mais que iremos ter cada vez mais línguas que possuem palavras universais, que vão adquirindo significados de palavras na língua materna do falante.



Para terminar esse desabafo sobre essa leitura tão aguardada, é muito fácil reconhecer esse tipo de storytelling, mas acredito que virou a marca registrada do autor. Ghostwritten (1999) tem também influências que levaram o autor a ser convidado a escrever e roteirizar a segunda temporada de Sense8. David é um autor muito controverso e peculiar: sua próxima aparição na mídia foi em 2016 quando escreveu um livro que só deve ser publicado em 2114. O que esperar de alguém assim, não é mesmo?

#AtlasdeNuvens #DavidMitchell #LiteraturaAmericana

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