• Napolitano como meu pé

Livro | As meninas (Lygia Fagundes Telles)


Eu não tinha vontade de ler Lygia Fagundes Telles e eu não sei porquê. Confesso que ainda agora, depois de dois livros lidos, um depois do outro e de ter caído de amores pelos dois, ainda sinto dificuldade em querer ler um livro dela, apesar de querer ler absolutamente tudo o que ela já escreveu.

E eu achava mesmo que As meninas seria o primeiro livro dela que eu leria. Uma vez eu fui à feira e não sabia o que comprar e encontrei esse meu volume por dez reais. Mas comprei porque ele estava inteiro, barato e porque ele me hipnotizou. Essa é a verdade.


Passei dois anos adiando a leitura. A Raquel, uma das meninas que moram comigo, ficava falando que esse é um dos melhores livros que ela já leu, que é uma leitura que te acompanha pra sempre, que eu iria adorar esse livro e que por fim, eu não me arrependeria da leitura.

Pois bem. Depois de Seminário dos ratos, eu não duvidei de nada do que ela dizia, mas ainda assim eu não conseguia me empurrar pra leitura de As meninas. Mas quando comecei… ah, meus amigos, quando eu comecei…


O livro já começa chutando a porta e invadindo seu espaço pessoal. Sério. É dele o trecho mais sexy que eu já li e eu não li pouca coisa. Mas veja bem: é sexy justamente porque a Lygia sabe brincar com as palavras, descrever através de véus que deixam a gente ter só um breve vislumbre do que está rolando ali. Sua cabeça faz o resto. E existe algo mais sexy que a penumbra somada à insinuação?

E bem, sexo está presente no livro inteiro. Assim como amizade, autodescoberta, guerrilha, ditadura. E mulheres.


As meninas do título – Lorena, Lia e Ana Clara – moram num pensionato de freiras em São Paulo, as três no começo da vida adulta, longe dos pais, tentando, cada uma ao seu modo, continuar a universidade. Só essa premissa me fez ser cada uma delas ao mesmo tempo.

Cada uma delas, aliás, tem uma personalidade muito distinta, assim como uma história de vida complexa que vai se desenrolando aos poucos, com muita calma. A Lygia vai te entregando os detalhes num conta-gotas que às vezes parece até emperrar. No começo a gente se perde na narrativa dela e quando acaba, sabe de cor quem está narrando aquelas palavras.


A Lygia foi genial nesse livro e é até difícil de explicar. Ela adapta a linguagem pra cada personagem, uma a uma sendo exposta enquanto se esconde em seus próprios vícios e rotinas.

E eu não sei se é 1) o fato de eu ser menina e na idade aproximada delas, 2) o fato de também cursar USP e longe dos pais (não, ela não deixa claro que é a USP a universidade delas, mas a Lygia fez USP e a faculdade das três estava em greve, algo bastante uspiano e uma coisa e outra na narrativa me aproximou muito da USP), 3) o fato de eu mesma estar com o curso trancado, tentando equilibrar na loucura dos dias um curso que encanta e decepciona na mesma medida e o trabalho, necessário e querido.

Mas eu me identifiquei com todas elas. Com a petulância da Lia de ir derramando por onde passa toda a sua visão de mundo, com a delicadeza e metodismo da Lorena que precisa ter tudo exatamente no lugar pra fazer a vida girar, com a Ana Clara, que saiu completamente do trilho e se perdeu. E eu consigo enxergar todas as minhas amigas, que dividiram essa realidade comigo, em cada uma delas.


Foi um livro que falou diretamente comigo e eu não acredito que seja diferente com outras pessoas. Claramente não se pode agradar gregos e troianos, mas a Lygia tem um poder todo dela de fazer o mundo parar enquanto ela passa. Não há outra possibilidade de existência com esse livro na mão, que não seja viver através dele.

E antes que eu acabe esse texto sem ter dito propriamente nada, não fica claro o ano da narrativa, mas o livro foi publicado em 1973. Se você é bom de história, já ligou os pontinhos. Em 1973 o Brasil estava mergulhado há nove anos na ditadura militar, governado por Emilio Garrastazu Médici e vivendo uma série de torturas e prisões políticas veladas. Inclusive, a cena mais famosa do livro é um relato de tortura. É forte, o choro se solta mais fácil do que achamos ser possível.


Inclusive o livro foi adaptado pro cinema e é possível assistir essa cena no Youtube, graças a alguma alma bondosa que dividiu conosco essa maravilha. Deixei a cena no final do post pro caso de você ficar com preguiça de abrir outra guia.

Mas mesmo a Lygia não especificando o ano da narrativa, a realidade do Brasil nunca se perde ao longo do livro. O medo da ditadura continua ali, latente, ameaçadora, até a última página, mudando as vidas e hábitos dos brasileiros. A gente se preocupa com cada uma das meninas e percebemos como era fácil estar longe do padrão de cidadão que o governo gostaria que você fosse.


Pra terminar de verdade, eu espero que você leia As meninas e quando topar com a dificuldade que a narrativa da Lygia impõe, você tome uma água e continue; eu juro que vale a pena.

Como eu disse ali em cima, eu já tinha lido outro livro da Lygia mas agora não sei se leio dela Ciranda de pedra ou As horas nuas. O que você acha?

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