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Livro | Androides sonham com ovelhas elétricas? (Philip K. Dick)

Zapeando no catálogo da Netflix, encontrei o filme Blade Runner, que no Brasil ganhou o subtítulo de O caçador de androides. Blade Runner é um filme de 1982, com roteiro baseado no livro Androides sonham com ovelhas elétricas? de Philip K. Dick.


Um ano e meio depois da leitura do livro, a história ainda estava fresca na memória: num planeta Terra destruído e seco, quase sem vida natural e com poucos seres humanos, é quase óbvio que animais sejam raros e caros, mas nos surpreende ser alto o status em que são elevados os donos de um bichinho de verdade. Por isso Deckard, o protagonista da história, se envergonha tanto de sua ovelha elétrica e aceita caçar quatro androides (ou replicantes) fugitivos: ele finalmente teria dinheiro para comprar e manter um animal. Inclusive, é uma tristeza que essa premissa tenha se perdido no filme: não fica claro pro espectador quais são os motivos pelos quais o Deckard aceita o trabalho, a não ser o dinheiro puro e simples.


Aos poucos vamos sendo inseridos nesse espaço-tempo esquisito que se tornou a Terra, lugar hostil em que poucos seres humanos são capazes de viver sem serem atingidos pela poeira radioativa que vai minando seus QIs. O lugar todo é desolador e os replicantes estão se tornando mais e mais parecidos com os seres humanos e são proibidos de existirem na Terra, precisam se manter trabalhando para humanos nas colônias espaciais.



É nesse cenário que quatro replicantes fogem para nosso inóspito planeta e precisam ser caçados. Eles são extremamente parecidos com os humanos e precisam passar por um teste que mede rapidez de resposta e contrações de pupila para serem identificados como androides e serem aposentados – ou mortos?



Na história de Dick as duas palavras possuem mais questionamentos do que você imagina.

Isso porque o livro inteiro se pergunta o que nos torna humanos. O que nos torna diferentes dos replicantes? Nós temos sonhos e os replicantes também têm. Porque eles são aposentados e nós, mortos? Qual a diferença entre morrer e só deixar de existir?


No filme, uma replicante diz que pensa, logo, existe. E confesso que foi a partir disso que toda essa discussão começou na minha cabeça. Porque o livro vai buscar respostas na maravilhosa capacidade humana de sentir empatia, de conseguir se colocar no lugar do outro, sentir a dor e alegria do outro. No filme, isso é colocado através dos planos pro futuro, no desejo de viver melhor, viver mais do que os outros esperam de você, como é o caso dos androides. No filme, ter uma vida é colocado como ter a capacidade de pensar por si mesmo, sozinho.



É claro que essa capacidade de pensar foi inserida no replicante por um ser humano, então nesse aspecto, o livro é bem mais profundo. Mas quando morrem, os seres humanos continuam se reproduzindo. Quando morrem, os replicantes, androides, robôs, como você quiser chamá-los, apenas deixam de existir. Como espécie, eles desaparecem.


Então o que apareceu na minha cabeça como um possível problema de escolha de palavras, acabou contribuindo ao grande questionamento do livro. Porque sim, essa discussão sobre morrer e aposentar pode existir só nesse contexto de Androides sonham com ovelhas elétricas? mas quando a gente pensa que o livro na verdade é uma grande questão sobre qual seria a maior característica humana de todas, tudo muda de figura e o que era só uma ficção científica, perdida no meio desse descaso com todo um gênero literário, se torna uma pérola que não se quer perder.

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