• Napolitano como meu pé

Livro | A glória e seu cortejo de horrores (Fernanda Torres)

Tô com uma barreira criativa com esse livro e parando pra pensar agora, esse livro inteiro foi uma barreira criativa pra mim. A escrita da Fernanda Torres é deliciosa, você é carregado pelas palavras, mas pra mim, um defeito criou a primeira barreira: eu lia e automaticamente vinha a voz dela narrando aquilo.


Eu adoro ouvir a Fernanda Torres falar. É delicioso, ela tem uma propriedade de si mesma e das palavras que torna tudo muito prazeroso. Só que a voz dela não encaixava com a voz do narrador na minha cabeça. E o fato do livro ser narrado em primeira pessoa, por um homem, ator em completo declínio, me deixou muito confusa.

Mas vamos por partes, então. A glória e seu cortejo de horrores.


O livro é uma seleção de memórias do ator Mario Cardoso. Digo seleção porque a gente vai pulando de memória em memória até o final, mas nada é planejado na história desse livro. As memórias surgem e ele vai contando, mas ainda assim, todas são divididas em episódios. O livro não é dividido em capítulos, mas existe uma quebra no texto de acordo com o fim e começo de cada episódio, separando as lembranças uma das outras.

Mario Cardoso, como eu disse, é um ator em completo declínio mas na verdade ele talvez já esteja na parte mais baixa no processo de esquecimento nacional. A gente fica sabendo nesse livro o começo da sua carreira de ator, sua relação com a família, a luta de se fazer teatro no Brasil (em período da ditadura e depois dela). A gente lê sua passagem pela universidade, seu sucesso no teatro e na televisão, seus relacionamentos.


O que me incomodou nesse livro, logo depois da voz da Fernanda Torres na minha cabeça, foi a inconstância que eu senti. Não achei o livro uniforme, sabe? Algumas lembranças (como a primeira) eram deliciosas de ler, eu lia e queria mais. Outras, como quando ele foi com o pessoal da faculdade pra dentro do sertão brasileiro, foi a maior dificuldade de terminar, a leitura arrastava, nada chegava num ponto, a narrativa não convencia, o personagem sumia em meio aos outros, ele parecia completamente sem personalidade e eu fui me desgastando e desgostando. E pra mim, pelo menos, o livro continuou assim até o final.

Em certo momento, fiquei inclusive com medo de perder minha simpatia pela Fernanda Torres. Mas eu sou essa pessoa que insiste em tudo: nos outros, nos erros, nos filmes, nos livros…


Continuei a leitura e pra equilibrar, as memórias boas eram muito boas. Veja, quando digo “memória boa”, quero dizer narrativa boa e não memória feliz. Alguns causos, por assim dizer, eram bons demais, narrados com uma maestria absurda. Fui percebendo que meu maior problema nesse livro era justamente com o narrador e assim Fernandinha foi salva.

Mario Cardoso não dava a mínima pra ninguém. Pensava em si mesmo sem parar e obviamente ele aproveitou da glória o tanto que deu, mas o cortejo de horrores era sempre causado pelos outros. Quando eu enfim entendi isso, que o grande problema do livro era o personagem principal, finalmente gostei do que lia, em sua completude.


Eu costumo dizer que quando o autor cria um personagem detestável e mesmo assim faz a gente continuar lendo, esse é um bom autor. Eu continuei lendo porque as partes boas eram boas demais para serem abandonadas, mesmo eu não me identificando com o personagem principal ou querendo saber o que raios ia acontecer pra ele chegar onde chegou. E sabendo agora que o personagem era completamente odiável, eu ficava feliz a cada vez que ele se estrepava e comecei a lidar melhor com os momentos de redenção dele.

O final desse livro foi uma delícia. Não sei mais se porque foram daqueles trechos gostosos ou se porque eu fiz as pazes com o livro. Mas eu só guardo na estante os livros que quero reler e esse é um deles. Sabendo agora o que eu sei, a releitura vai fazer por mim o que a primeira vez não fez e vou ser mais feliz.

No final das contas, se você chegou aqui na dúvida se deve ou não ler esse livro, vai atrás de outras opiniões porque essa aqui não te serviu de nada. Minha relação com ele foi absolutamente pessoal e não acho que acrescente muito a qualquer outra pessoa. Mas se ainda assim você quer saber o que eu acho, eu digo leia. Mas vai com calma na expectativa.

#FernandaTorres #LiteraturaBrasileira