• Napolitano como meu pé

Livro | 2001: uma odisseia no espaço


“antes de ter um filme você tem que ter um roteiro e antes de ter um roteiro você tem que ter uma história”,

Kubrick convidou Arthur C. Clarke para escrever o livro, que se tornou uma versão

“mais extensa e detalhada”

do que foi apresentado nas telonas.

O filme é famoso por não ser de fácil compreensão, e o livro não fica muito longe disso: ambos foram feitos para não serem entendidos. A obra é dividida em seis partes que se relacionam entre si e montam a história com alguns saltos no tempo, que são importantes para mostrar ao leitor o desenvolvimento do ser humano como espécie e o seu relacionamento com o planeta Terra e o universo.


A primeira parte narra a origem da humanidade, ou para ser mais exata, a sobrevivência dela. Num período em que apenas os

“velozes e os ferozes”

sobrevivem, os homens-macacos eram fracos e lentos e estavam à beira da extinção.

A situação muda quando um monolito aparece e influencia esses quase-humanos a utilizarem ossos e pedras como armas para se defender e se alimentar, e assim, perpetuar a espécie.


Já a segunda parte deixa o leitor meio confuso. Se o começo do livro não se parece em nada com uma odisseia no espaço, a segunda parte não se parece em nada com a primeira. Nós somos apresentados a alguns cientistas e descobrimos que em 2001, já é possível fazer viagens à Lua e à Marte e que o planeta Terra está tão superlotado que logo mais viver em estações espaciais será uma realidade.

Assim, acompanhamos a descoberta de um monolito na superfície lunar,

“uma placa vertical de material preto, com cerca de três metros de altura e um metro e meio de largura, tão preta que parecia ter engolido toda a luz que caía sobre ela”.

A partir da terceira parte, entretanto, acompanhamos a viagem de cinco pessoas e uma inteligência artificial a bordo da nave Discovery e descobrimos que algo saiu terrivelmente errado com o planejamento da missão e tudo de repente fica fora de controle.

Quando terminei a leitura da primeira parte, minha cabeça parecia um carrossel, dando voltas e mais voltas. É verdade que eu nunca pensei direito na evolução do ser humano até chegar no que nós atualmente somos, mas de repente eu percebi que conhecendo ou não o que a ciência diz, nós sabemos pouco demais para ter qualquer certeza.


E essa é a sagacidade de Clarke: 2001 possui como mote principal um objeto enorme e antigo à espera de algum contato e isso sozinho já força dúvidas mecânicas sobre a nossa solidão no universo. Mas mesmo assim cada questionamento e pensamento filosófico é sutilmente inserido no texto.

Se o que realmente importa num livro não é a história em si mas a forma usada para contá-la, Clarke conseguiu criar um jeito todo dele pra isso. Como eu disse, ele divide a história em partes e apresenta personagens que não ficam muito tempo conosco, que se conectam em ligações muito tênues, ignorando suas personalidades, hábitos e amores. Clarke quase deixa os personagens completamente de lado, cada um deles aparece na história apenas como meio de contar pro leitor a situação atual da Terra e nós vamos nos distanciando do planeta azul e seus habitantes a cada linha.


No final do livro, estamos inseridos na imensidão de estrelas junto com o personagem e tentando também com ele, desvendar o mistério do que vemos à frente. E então, só então, percebemos que a odisseia no espaço é vivida todos os dias por cada um de nós. Todas as imagens descritas por Clarke nesse momento causam espanto, mesmo sendo intimamente ligadas ao nosso cotidiano e nos damos conta da pequenez da nossa existência. Acho muito difícil terminar essa leitura sem estranhar cada mania humana que temos, cada hábito que no fundo é só instinto de sobrevivência disfarçado.

2001 foi o primeiro livro do Clarke que eu li e pra dizer a verdade, acho que foi a minha primeira ficção científica, então fiquei surpresa ao perceber geopolítica e tecnologia em equilíbrio com física e astronomia, que eram apenas o que eu esperava do livro.


É claro que esse equilíbrio aparece em outros livros de ficção científica (já li mais um monte depois desse!), mas chama a nossa atenção em 2001 por um detalhe bem pequeno: em 1969 o homem pisou na Lua. E em 1968, um ano antes, 2001 estreou nos cinemas e nas livrarias. Kubrick queria um filme que não tivesse data de validade e conseguiu. Arthur C. Clarke escreveu uma história que visava um futuro distante mas que cientificamente começava a se mostrar possível e isso em grande parte graças à sua formação em física e matemática. Aliás, foi Clarke quem expôs os primeiros princípios de satélites geoestacionários que hoje são usados para comunicação. Ou seja, ele sabe como escrever uma boa ficção científica.

A edição que eu li, essa que aparece nesse post, foi publicada pela editora Aleph e é, como a editora diz, única: possui dois contos que deram origem à história e prefácios que nos aproximam um pouco mais de Clarke e Kubrick.


Se esse livro e o filme são marcos na história da ficção científica, essa edição é um marco para os leitores: o livro é em seu exterior, completamente preto, como o monolito. Um presente de um amante da ficção científica para outro amante.

Mas acho que me precipitei. Se você acompanha a editora Aleph nas redes sociais, deve saber que o verdadeiro presente em forma de livro está para chegar:


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Un post condiviso da Aleph (@editoraaleph) in data: Ott 16, 2018 at 11:49 PDT

Ah, todas as fotos desse post foram feitas por mim e pelo Cama de Rato no Parque Ibirapuera.

#ArthurCClarke #LiteraturaAmericana #StankeyKubrick