• Napolitano como meu pé

Filme | Visages, Villages (Agnès Varda, JR)

Assisti ontem Visage, villages, da Agnès Varda e é incrível demais, tô apaixonada! Ela é absolutamente encantadora, com um olhar pro mundo muito apurado.



Ela parece um quebra-cabeça montado perfeitamente, com todas as bordas muito bem encaixadas.

O filme é feito na companhia do fotógrafo e artista plástico/urbano JR. Ele tem um caminhão muito maluco, onde as pessoas entram para serem fotografadas e ao lado a foto é impressa segundo depois, num tamanho gigante para serem coladas em alguma parece que esteja disponível.

É doido, ele tem um visual levemente excêntrico, de óculos escuros e chapéu o tempo todo, claramente no intuito de criar uma marca. Mas soa forçado, muitas vezes sem razão para existir e a Agnès não deixa barato: passa o filme inteiro insistindo para que ele tire os óculos e tirando sarro da imagem quase estática que ele criou para si.

Ele nem de longe possui a facilidade de existência no mundo que ela tem, mas possui o mesmo charme que ela, capaz de transformar todos os lugares e pessoas em imagens familiares.

Se a Agnès é um quebra-cabeça perfeito, ele parece se afastar disso quase que propositalmente. A pessoa que ele é forma milhares de imagens com as peças que o compõem. Ela junta todas essas imagens numa só.

É lindo o fio condutor dela. Se o tempo das memórias não é cronológico, ela consegue unir presente e passado mesmo com todos os nós do caminho. Bentinho sentiria inveja.

E eu também sinto. Principalmente dessa facilidade de caminhar pela rota entre a ideia e o projeto consumado. Dele eu invejo a facilidade de enxergar tudo como tão fluido e efêmero.

Tudo nesse filme me tocou. As conversas, a plasticidade de algumas cenas, o orgânico de todas as outras. As cores que o cenário naturalmente produz, a forma como o filme inteiro já estava na cabeça dela, com todas as transições no lugar.

Esse texto aqui eu escrevi no meu diário logo depois que assisti ao filme. No texto original, eu faço uma reflexão sobre o meu próprio quebra-cabeça ser bagunçado e sobre a vontade de fazer algo grande. Mas concluo que existir no mundo já gigante demais e chega a ser absurdo a presença de Vardas e JRs nesse mesmo mundo.

Um último adendo: assisti na plataforma Sesc Digital. Vale a pena conhecer, hein?

#AgnèsVarda #JR