• Napolitano como meu pé

Diário da Quarentena | Favor não esquecer


Comecei a fazer o Diário da Quarentena quando eu estava no ápice do desconforto com a situação, quando eu ainda me sentia muito vulnerável por ter que continuar trabalhando e quando o isolamento realmente começou e me tirou completamente da zona de conforto – embora eu esteja muito inserida na zona de conforto que é a minha casa.

Quando eu acostumei com a rotina que eu criei, as coisas facilitaram dentro de mim e eu deixei pra lá esse lance de documentar quarentena, até porque nada estava realmente acontecendo no meu cotidiano. Mas então veio meu aniversário, veio amigos doentes (graças a Deus não de covid-19), veio uma reviravolta na política, veio OVNIS e acima de tudo, veio a consciência de que eu nunca lembro com detalhes das coisas ruins que aconteceram comigo.

Essa consciência surgiu com a terapia (inclusive a terapia tem sido um capítulo à parte nessa quarentena) (eu odeio falar \”nessa quarentena\” porque fica subentendido que haverão outras). E eu achei que se existe algo que eu preciso fazer por mim no meio disso tudo, é lembrar dos meus dias, porque o valor só surge com a comparação.

Então vou deixar por aqui, num fôlego desabalado algumas coisas que estão aparecendo na minha cabeça, num resumo bagunçado de como foi Abril.

Passei as três primeiras semanas com bastante ansiedade, que mudava a cada domingo a forma de aparecer: não senti fome, comi muito chocolate, tive bastante dor de cabeça, dificuldade de dormir, senti muita falta de ar. Este último foi o último, porque quando a ansiedade chega num ponto que é ou ela ou a gente, a gente escolhe prestar atenção. Não digo que estou bem agora, mas não corro mais pra levantar da cama nem pra dormir. Não atropelo meus processos, tento respirar fundo e descobrir do que eu tô com vontade. Tô lendo num ritmo mais lento e assistindo mais séries, o que tem sido uma inversão gostosa. Meus sonhos voltaram a ser loucos, como sonhos devem ser, sem grandes significados inconscientes.

Meu aniversário foi ficar a tarde inteira na frente do celular numa chamada de vídeo gigante com quem tem estado mais presente nessa distância e ouso dizer que foi o melhor aniversário de todos em questão de amor (porque em questão de acontecimento, o show do Vanguart cantando Beatles foi imbatível).

Eu finalmente remendei minhas meias e posso passar mais uns meses sem gastar dinheiro com isso e a sensação de dever cumprido foi enorme. Por falar em costurar, fim de semana passado eu fiz minha primeira bolsa, que estou usando pra guardar meu material de costura. Acho que esse sábado vai vir mais projetinho como esse e eu mal posso esperar.

Conversei no telefone com meus melhores amigos e me senti muito acolhida, principalmente porque essa serenidade estranha de aceitar que se está em confinamento vem com um preço muito alto: a terapia.

Não tem sido um período fácil pra mim, eu sinto que tudo se acumulou, quase como se o universo quisesse que eu passasse por alguma prova (e tem sido tão difícil que chega a ser tentador acreditar nessas coisas de universo e escrito nas estrelas). Terminei um namoro de dois anos e meio e fiquei completamente perdida. Mergulhei de cabeça num problema emocional que me acompanhava desde metade de 2017 e me senti mais perdida ainda depois disso. As coisas apertaram no trabalho, eu não sei se me encaixo ou não como grupo de risco dessa doença e por fim, o distanciamento social pra mim que odeio ficar dentro de casa. A saudade lá de fora é dor física.

Todas as questões que me incomodaram desde janeiro ganharam proporções assustadoras na quarentena e na terapia eu percebi o quanto todos esses sentimentos me acompanham desde os três anos de idade. O quanto eu fui mergulhando em dor e frustração e fingindo que nada está acontecendo. Eu fui deixando de sentir e lembrar das coisas porque esquecer é tão mais fácil.

Mas esquecer das dores da quarentena vai me fazer esquecer também das delícias de se preocupar só com o que tá dentro de mim, de começar projetos e por falta de distrações, conseguir acabá-los. Vai me fazer esquecer de aproveitar cada segundinho de liberdade quando isso aqui acabar.

Não digo que a partir de agora as coisas fazem sentido porque tudo nunca esteve tão fora do lugar. Mas a gente se mantém vivendo um dia de cada vez e focando em um problema por vez. Aos poucos acho que o aprendizado fica mais barato e fácil de assimilar. Tomara!

#Quarentena