• Nati Aguilar

Diário da quarentena | De todos os planos deixados pra depois

Sei nem por onde começar esse texto. Acho que eu devia dar um panorama geral de como eu estou. Estou bem. Essas duas últimas semanas foram lindas, eu me senti muito bem e aproveitando cada momentinho bom, olhando mais pra mim mesma e fazendo progressos pessoais que não cabem aqui, mas acho que dá pra dizer que a minha psicoterapeuta ficou muito feliz. Ah, sexta passada completei 70 dias de isolamento social. Pra quem não conseguia passar um fim de semana inteiro dentro de casa, sobrevivi bem!



E aí acho que dá pra entrar no assunto dessa entrada do diário da quarentena. Eu estou lendo a biografia do Max Perkins, como já comentei aqui no Napolitano. Ele foi editor do F. Scott Fitzgerald e do Ernest Hemingway e eu tenho esse plano de ler tudo desses dois ou o máximo que eu conseguir.

Bem, na biografia a gente tem acesso a trechos de cartas que o Perkins trocou com os dois autores e ficamos sabendo da relação dos três e de cada uma das duplas possíveis (Perkins-Hemingway, Perkins-Fitzgerald, Hemingway-Fitzgerald). E mais empolgante que isso, ficamos sabendo do olhar dos dois autores para outros autores. Eu achei a coisa mais linda do mundo observar, mesmo que só um pouquinho, o Hemingway duvidando da própria escrita e mesmo assim confiando nela porque era tudo o que ele tinha, trabalhando cada vez mais nela e se tornando um autor de referência pra época, até que em determinado momento ele percebe que ele é sim uma das vozes mais autênticas dos anos 20 e 30, crescendo conforme a sociedade americana crescia e que se tinha alguma competitividade ou alguém a ser superado em questão de literatura, esse alguém já estava morto. E então ele toca no nome do Faulkner que talvez fosse a exceção, não estivesse esse último em plena e visível decadência.

E aí a pobre Natália começou a passar mal, porque veja bem, eu comentei ali em cima que tenho esse plano de ler o máximo que conseguir do Fitzgerald e do Hemingway, mas atualmente, li só dois livros do Fitz e três do Hem (sim, sou íntima, me deixa!). Mas também tenho esse plano pro Faulkner e dele só li um!

Depois de ter percebido isso, fiquei pensando o quanto eu amo essa minha obsessão pela literatura americana e como não é algo com a literatura americana em si, mas com um momento específico dela. Me senti mal sim, confesso, logo ao perceber essa mania, porque não acho bonito manter a supremacia americana, mesmo que atualmente apenas por tradição. Só que logo em seguida percebi que mantenho a mesma obsessão por três autores brasileiros: Érico Veríssimo, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. E inclusive eu estava colocando em prática o plano de ler um livro da Lygia por mês em 2020, quando surgiu a quarentena.

E parei pra pensar nos planos. Porque sejamos realistas, a quarentena estragou o 2020 de todo mundo.


Foram viagens, shows, negócios, um ano inteiro que vamos precisar reformular. Dói pensar nesse tempo que ficou pra trás e nunca vamos recuperar, mas ajuda sim pensar que estivemos nos protegendo. Estar em contato com nós mesmos, focados em nossa saúde e em o quanto nossos costumes são ainda exploratórios com o planeta, reacende, pelo menos em mim, a esperança de que podemos melhorar.

Mas deixei de lado o meu querido show do Skank que foi cancelado e fiquei pensando nos planos literários que eu tinha pra 2020 e em outros que eu queria tanto colocar em prática e que por algum motivo eu vou deixando pra depois.

Eu nunca fiz lista de livros que eu quero ler no ano, apenas algumas metas pequenas que garantem que vou ter sucesso em dezembro (o fracasso nunca foi muito uma opção por aqui) e nunca fui muito feliz ao escolher um autor pra me dedicar ao longo do ano também. Mas esse último porque eu gosto de me sabotar.

Listando todos os autores que eu gostaria de ler e os estudos que eu quero muito fazer sobre eles, me pergunto sem parar o motivo e busco, busco, sem nunca encontrar algo. Até porque não existe bem um motivo pra eu não ter lido mais Fitzgerald ou Hemingway. Ou eles vão mudando de acordo com a época: eu não tenho a edição que queria, ou não tem na biblioteca, as vezes esse livro específico eu queria ler num exemplar meu (até porque eu quero ler todos eles porque quero comparar e estudar e isso exige ficar anotando em tudo), ou o que eu quero está muito caro. As vezes eu deixo de ler Clarice e Lygia porque queria ler algum livro teórico junto mas nunca sei qual escolher.

E agora, escrevendo esse texto e lembrando mais uma vez dos planos que a quarentena me fez adiar, percebo que a maioria deles não se concretizam porque eu vou deixando pro momento perfeito que é sempre um futuro impalpável. Nunca o agora. Nunca aqui. Será que é mesmo tão difícil começar as coisas?

Absolutamente tudo nessa pandemia tem sido pensado e tem entrado numa promessa muda de mudança. Não sei você, mas eu tô bem ansiosa pra colocar as promessas em prática. Mas a mais forte delas até agora, é aproveitar o dia de hoje. Se hoje eu tenho Fitzgerald pra ler, então que eu leia Fitzgerald. Se não tive mas a vontade bater, que eu dê um jeito de ler Fitzgerald, porque o tempo não vai me dar uma segunda chance pra recriar meus planos.

#Quarentena

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