• Napolitano como meu pé

Diário da Quarentena | De quando a vida é um pesadelo

Há muito tempo eu não me sentia assim e eu não sei qual foi o gatilho porque aconteceram muitas coisas em meia hora. Quero deixar claro que agora é segunda-feira, quase terça, 23 horas e 46 minutos. Minha psicóloga diz que eu tenho que parar de mexer no celular antes de dormir. Talvez hoje eu tenha decretado que é mesmo um vício a se pôr (isso ainda tem acento? eu nunca consegui aprender direito depois de 2009) um fim.


First things first: muita coisa tem acontecido aqui dentro e eu gostaria de escrever sobre isso, não aqui, mas talvez em formato de carta pras pessoas mais importantes ficarem sabendo porque parece que certos detalhes de quem eu sou e do que eu já vivi podem facilitar a convivência comigo. Alguém um dia falou que eu sou uma pessoa difícil e eu acreditei. Eu não devia acreditar em todo mundo.

Com todos esses acontecimentos, eu tenho buscado me encontrar desesperadamente e uma das formas foi voltar a assistir filmes. Escrevi o post de ontem depois de assistir \”Apenas o fim\”, filme brasileiro que me moldou mais do que eu lembrava. E agora, escrevo esse depois de ter assistido \”The disappearing of Eleanor Rigby: Them\”. Podia ter sido mais, mas tudo no filme fica por conta da carga emocional dos personagens, atuados tão bem, e de algumas frases que ficam ecoando nos corações fragilizados.

Em tempos de distanciamento social, não é uma boa ideia entrar no twitter logo depois desse filme numa segunda-feira à noite. Eu devia mudar meus algoritmos para mostrarem apenas notícias boas. Eu entrei no twitter e dou de cara com opiniões sobre o suicídio de alguém. Depois, que existem algumas pessoas infectadas com covid-19 que apresentam um quadro de pneumonia silenciosa: não demonstram nenhum sintoma, porém ela está lá, te matando aos poucos enquanto você olha o celular. Logo em seguida, imagens de dedos dos pés machucados e algo como médicos espanhóis terem detectado que alguns pacientes jovens de covid-19 aparecem com essas escoriações nos pés e não se sabe como que isso se relaciona com a doença (talvez pela falta de oxigenação no sangue?).

Temos tratato na terapia meu medo terrível de não ser amada e a certeza de que vou ser abandonada por conta de um evento traumático que aconteceu comigo aos 3 anos de idade dentro de outra situação traumática maior. Isso é importante porque no passado eu me sentia como me sinto agora mas achava que vinha do nada. Hoje eu sei que tem um motivo e tem uma data de início. De qualquer forma: pensar naquelas duas notícias me deixou sem chão. Já fiquei dias internada sem ar e saí do hospital sem um diagnóstico. Saber que posso estar bem mas morrendo é terrível, apesar de bem, todos estarmos bem e morrendo ao mesmo tempo. Com os pés feridos eu lembrei da minha psoríase, que não aparece há três meses e que não daria chance nenhuma pros meus pés se algo assim acontecesse.

E o negócio é que eu estou saindo o mínimo possível de casa, estou segura aqui dentro, mas existem pessoas que não estão. E mesmo eu estando segura agora, qual é o ponto? A solidão e o sentimento de abandono me invadiram sem dó nem piedade (as pessoas ainda falam isso?) e eu queria muito mesmo me sentir amada agora, em meio a todas essas lágrimas, ranho e olhos vermelhos. Veja bem, eu sei que meus pais me amam e que meus amigos me amam. Inclusive, tem uma mensagem no meu whats, não lida, vinda da minha vó e outra de uma das minhas melhores amigas. Eu podia ter respondido as duas em vez de entrar no twitter. Mas eu entrei e a vida pareceu um pesadelo que apesar de horrível você ainda quer viver e sofre por isso. Eu comentei no post anterior que eu faço questão de lembrar como tem sido esse período de quarentena e tem sido assim às vezes.

Eu tenho feito coisas lindas, como escrever, fotografar e costurar, mas o quanto disso tudo não sou eu disfarçando a dor de ainda querer ser reconhecida por alguém?

Agora já é oficialmente terça-feira há dez minutos e acho que preciso ir dormir. Prometo colocar a foto de um por-do-sol bonito aqui  só pra gente lembrar um pouquinho mais que o mundo continua lá fora. Um dia eu disse que quero sempre lembrar que eu sou uma pessoa apaixonada e que mesmo as minhas crises se originam da paixão. Gostaria de deixar claro que com essa aqui não é diferente: eu amo muito mesmo estar viva e a vida em cativeiro é tão terrível. Mas ainda é vida.

#Quarentena