• Nati Aguilar

Diário da Quarentena | Última semana de trabalho


Quarta-feira, 18 de março de 2020. Boa parte das pessoas estão já de quarentena mas eu continuo trabalhando. A cada dia vejo menos pessoas nas ruas e nos ônibus. Inclusive, continuo pegando ônibus e hoje eu me senti mais segura no transporte público do que me senti na sexta ou na segunda, justamente por estar mais vazio.

As coisas apertaram de verdade no fim de semana e na segunda-feira os cuidados redobraram. O problema, bem, um dos problemas, é que o coronavírus não dobra. Ele triplica e quadruplica. Por isso as pessoas começaram a ficar em casa.

Eu amo São Paulo e odeio ficar dentro de casa. Prisão domiciliar é um conceito muito real e doloroso pra mim. Então, prevendo o que aconteceria logo mais, me dei um último passeio no sábado. Pode ter sido irresponsabilidade mas ainda assim, foi a melhor escolha.

Falo sempre por aqui que minha pele precisa de sol por causa da psoríase, mas a verdade é que eu me sinto genuinamente melhor no sol e os meses de inverno são uma tortura pra mim e eu percebo meu bom-humor desaparecer aos poucos, conforme fico cada vez mais sem sol. Isso acontece também se eu fico tempo demais dentro de casa, e passar o sábado longe foi uma ótima forma de me preparar.

Na segunda o movimento nas ruas já havia diminuído: mais espaço nos ônibus e menos carros nas ruas, acabei chegando mais cedo no trabalho. Só eu desci no meu ponto de ônibus e a quantidade de gente fazendo o mesmo caminho que eu era assustadoramente baixa.

Ontem, ainda menos carros nas ruas e menos gente nos ônibus. Quando desci no meu ponto de manhã, só tinha eu no ônibus. À noite, no tentanto, o movimento era maior, o que colaborou com o aumento da minha ansiedade. Cheguei em casa, tomei um banho e assisti uma série com minha amiga. Esse é o momento de a gente sentar, contar sobre o dia e respirar fundo. Amanhã tem mais.

E hoje, realmente teve mais. No trabalho, eu cheia de coisas pra entregar como se a economia mundial continuasse a mesma e um sentimento esquisito de algo fora de lugar. Olhamos para fora e o mundo parece o mesmo e a pressão do trabalho parece a mesma, mas por que tanta ansiedade, então? Reunião de gerentes: ficamos em casa a partir de segunda-feira. A ansiedade aumenta. Na volta pra casa, aperto os braços em volta do corpo com força. Caio no chão mas não toco em nada. Ótimo momento pra confirmarem aquela teoria de que na verdade os átomos só chegam perto demais um dos outros, que nós nunca tocamos nada.

A psicoterapia agora é via Skype. Eu que estranhava o beijinho no começo de cada sessão e o abraço de boa semana, de repente sinto falta da presença física da minha terapeuta. Ela me conta notícias mais técnicas sobre o Covid-19, os possíveis riscos que o meu coração corre e recomenda que eu tente começar a quarentena amanhã. Falar com ela acende o sinal de alerta na minha cabeça mas também me conforta. O mundo ainda é mundo, eu ainda sou eu, o sol ainda existe.

Mesmo trabalhando, parece que o tempo dobrou. Cheguei em casa, tomei banho, fiz terapia, jantei, assisti o último episódio da terceira temporada de Stranger Things e fiquei uma hora e meia no telefone com uma das minhas melhores amigas antes de finalmente ir dormir.

Liguem para os amigos de vocês. Os melhores momentos da minha semana foram quando eu conversei com meus amigos pelo telefone. E quando descobri que a internet é uma benção que me aproxima de pessoas que eu achava ter perdido contato há muito tempo.

Quinta-feira, 20 de março de 2020. Acordei com uma urgência absurda de alguma coisa que até agora não consigo definir. Ainda menos ônibus nas ruas e menos pessoas. Inclusive, muita gente andando por aí com máscara e eu prefiro acreditar na estupidez de cada uma delas de achar que estão se protegendo – melhor que acreditar na estupidez de achar que estão todas com a doença e assim acham que estão protegendo o mundo.

Cheguei no trabalho e a urgência é visível em cada uma das pessoas do escritório. Todo mundo correndo de um lado para o outro, inclusive eu e de repente descubro que todos estão com o mesmo plano: se trancar em casa a partir de amanhã. No final da tarde, o desespero aumenta: cada um com várias bolsas a tiracolo, cheias e pesadas, desejando boa sorte e orações, recomendando cuidados e notícias.

Em duas horas dentro de casa, com pelo menos mais um mês pela frente, sentei na frente do computador já entediada, depois de ter jantado e lavado roupa. Vai ser um longo mês, mas vou tentar continuar lembrando que viver é bom demais, mesmo em espaço tão apertado.


PS: eu amo fazer planos e obviamente já estou com vários pra esse período e pra vida que vai vir depois dele. Então me segue no instagram, twitter e facebook que eu vou fazer maratona de compartilhar dicas de livros pra você ler assim que puder e dividir com vocês meus planos pro futuro. Seguimos juntos a distância.

#Quarentena

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