• Nati Aguilar

Coração na mão | Pra descobrir a (própria) América

Atualizado: 12 de ago.

Maio foi um mês de procurar autores brasileiros. Semana passada eu saberia explicar essa fome toda mas hoje já não sei mais.

O que eu sei é que eu adoro o blog da Taize Odelli, o Rizzenhas. Confio em tudo o que ela escreve, fala, pinta, canta, grita sobre livros. E hoje me peguei lendo a lista de livros lidos por ela em 2018. Eu sei, sou bem aleatória mesmo, nem tenta entender.


Na tal lista aparece o livro Todo mundo merece morrer, da autora brasileira Clarissa Wolff. Eu nunca me interessei por esse livro porque, confesso, a capa nunca me chamou a atenção. E não sei, em vez de entrar no post da Taize sobre o livro, eu resolvi pesquisá-lo no Google. E de repente eu nem estava mais pesquisando o livro, estava no site da autora, tentando absorver absolutamente tudo sobre ela (passei por um processo parecido com a Lygia Fagundes Telles no final de maio).


E de repente eu descubro que ela teve câncer. Quatro vezes. E na verdade esse não foi um detalhe que me chamou a atenção. Tenho um amigo da minha idade que teve câncer, fiquei só imaginando que eles teriam bastante coisa pra conversar (guarda esse meu pensamento que vai ser importante).


Comecei a assistir os vídeos do canal dela e adorei a calma e certeza com que ela fala dos livros, me aproximei mais. De repente, porque tudo sempre acontece de repente, eu estava num vídeo em que ela falava sobre os cânceres que teve. A partir daqui eu nem sei como continuar esse texto.


Eu nasci com problema no coração. Fiz tratamento por quase três anos mas ele resultou inútil, tive que operar. Segui uma vida normalzinha, era meio impedida de fazer educação física porque todo mundo tinha medo, mesmo depois que eu recebi alta aos oito anos. Aos dezesseis, fui internada com muita falta de ar. Acharam que era asma mas nunca foi confirmado. Voltei a fazer acompanhamento e acharam que meu problema estava voltando. Erraram de novo. Aos 23, disseram que meu coração pula algumas batidas quando eu canso. Assim vamos seguindo.


A verdade é que nada disso me incomoda muito. Ou melhor.


Perguntaram pra Clarissa se ela acha que a vida dela mudou muito por causa do câncer e ela respondeu que não. O primeiro apareceu quando ela tinha 12 anos, ela nem sabia o que era vida antes disso. E é exatamente assim que eu me sinto. Ou melhor.


Eu tenho uma cicatriz. Grande. Feia. Eu acho ela feia. Meu namorado não acha. Meus pais não acham. Ninguém mais acha. Já acharam, mas hoje não acham mais. Eu continuo achando. Acho que acabou sendo meio natural que a minha autoestima as vezes despencasse ao lembrar dessa cicatriz. Eu tenho alguns hábitos horríveis com a cicatriz que não cabem aqui e agora, mas eles só pioraram tudo. O fato é que algumas pessoas falam que essa cicatriz é símbolo da minha vida, do tanto que eu lutei pra estar aqui, que eu devia olhar pra ela com orgulho.


Eu agradeço de coração essas pessoas, mas é como a Clarissa disse, eu tenho essa cicatriz desde os três anos de idade. Eu não lutei. Quem lutou foi aquela menina de três anos, que segundo minha mãe, falava pelos cotovelos, era toda serelepe, que não tinha lá muito medo das coisas. Eu nunca mais reconheci essa garota em mim, eu acho que ela nem existe mais. Essa cicatriz não devia estar aqui, ela pertence a alguém que eu não conheço. Eu sei que devia não me importar, eu nem lembro de mim mesma sem ela.


Mas é difícil olhar para todas as outras garotas e elas terem a pele entre os seios tão lisinha.

E eu me senti tão conectada à Clarissa. Sem motivo algum, é claro, porque ela teve câncer quatro vezes, ela já era tão mais velha que eu quando aconteceu, mas ela foi o mais próximo que eu cheguei de alguém descrevendo algo que eu sinto sobre ter operado o coração. E então eu percebi o quanto eu sinto falta de ver pessoas com uma cicatriz igual à minha.


Meu amigo que teve câncer teria o que conversar com a Clarissa, eu não. E eu não tenho ninguém com quem conversar sobre a cirurgia, sobre alguém ter me aberto como se eu fosse um motor, sobre alguém ter literalmente tocado meu coração. Eu nunca tive ninguém que fosse um referencial de beleza com uma cicatriz.


E sempre de repente, me dei conta que se não tem ninguém pra me representar, eu tenho que fazer o papel representante. E agora eu tô aqui, contando tudo isso pra vocês, num fôlego que talvez eu me arrependa de manhã. Porque talvez eu devesse parar de procurar nos outros o que já existe em mim. E o sentimento foi de quem descobriu uma América cheia de perigos e prazeres esperando todo eles para serem colhidos e mordidos.



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