• Napolitano como meu pé

Coração na mão | E meu convidado surpresa

Esse texto eu escrevi no dia 28 de junho de 2021. Eu já tinha começado a cuidar de um novo espaço, mas ele era um texto que não podia esperar. Fica aqui apenas as boas-vindas pra esse texto que é meu querido e muito supresa.


Há uma semana e meia morria um colega meu de trabalho. Eu falava com ele todo dia, sempre respondendo as dúvidas dele e de vez em quando eu perguntava coisas pra empresa inteira e só ele tinha a resposta. Até que a gente começou a perguntar primeiro um pro outro e a tomar decisões juntos sobre questões que há muito tempo estavam sem respostas por lá.


Natália retirada temporariamente para restauro

Pois bem, ele morreu trágica e prematuramente, com 36 anos. Nove a mais que eu, com a vida entrando nos eixos, com um trabalho se não confortável, ao menos estável e por vezes divertido, embora estressante.


Ele morreu. E eu não sei no que você acredita, mas não importa muito as crenças possíveis, porque ele desapareceu. Ele não existe mais e há uma semana e meia eu tento lidar com isso.


Entrei em processo de luto, numa negativa esquisita da minha própria vida porque automaticamente parece que a gente não viveu quando alguém jovem morre. Mas a verdade é que a gente nunca viveu e podemos morrer jovens, de doenças, de fatalidades, de tragédias anunciadas, de esquecimentos planejados e deus me livre e te livre, de mortes autoimpostas (fiquemos bem <3).


Não lido bem com a morte dos outros. Com a minha eu achava que lidava porque ela sempre esteve meio que rondando, mas lido pior com a solidão e abandono do que com a minha ausência no mundo. Mas mesmo assim eu comecei um processo que a minha terapeuta chamou de [pausa pra eu lembrar o termo] pulsão de vida.


Eu voltei a planejar mil coisas e ao mesmo tempo me cobrar outras mil. O resultado é o corpo bastante dolorido de um esforço físico inexistente. E palavras esquecidas, como você pode notar ali em cima.


Mas hoje durante a terapia, ela, a minha terapeuta, repetiu milhões de vezes que eu existo e significo, que a cada dia que eu acordo eu significo de novo e que há 27 anos eu nasci e signifiquei e que há 27 anos eu deixo marcas no mundo.


Não sei porque, mas nesse momento lembrei de O convidado surpresa, livro de Gregoire Bouillier. Sua ex-namorada tinha o costume de fazer festa de aniversário para o mesmo número de convidados que a sua idade. Então se ela estivesse fazendo 27 anos, 27 pessoas eram convidadas. E uma delas era designada para levar um convidado surpresa, significante do novo ano que se iniciava para ela.


O Gregoire foi o convidado surpresa dela e agora não me lembro se antes ou depois de eles terem namorado. Isso não importa, o que importa é que desde que esse moço do meu trabalho morreu, eu tenho pensado muito nas pessoas da minha vida e pensado em mim como pessoa na vida das pessoas da minha vida.


E de repente eu percebi, na terapia, que eu sou minha convidada surpresa.


Antigamente eu tinha uma coleção de roupas compradas no impulso, roupas lindas, curtas, brilhantes ou coloridas e que eu queria muito usar mas quando chegava a oportunidade, eu não tinha coragem. Daí criei a Marcela. Ela era linda, estilosa, simpática. Na minha cabeça todo mundo gostava da Marcela e na vida real todo mundo realmente gostava da Marcela. Mas na vida real as pessoas não sabiam da Marcela, então só viam a Natália, o que fazia a Marcela não existir de verdade no mundo.


Ela era uma convidada surpresa num mundo real e que na minha cabeça tinha muito mais importância do que realmente deveria ter. Eu não sei quando deixei de usar a Marcela, mas eu me tornei ela de vez e hoje em dia não deixo de usar as roupas que quero e nem me seguro na beirada, dou um pulo de uma vez e encaro a água gelada porque sei que vai ser gostoso apesar do medo. Claro que metaforicamente. Eu ainda sou muito medrosa, a coragem da Marcela não veio pra mim.


Mas todo dia eu acordo e não sei absolutamente nada dele mas quando termina, eu percebo que não sabia nada de mim também. A cada dia a gente se descobre um pouco mais e o convidado surpresa que a gente era se revela e se acrescenta sem retorno ou devoluções.


Portanto, pra você que me lê aqui, saiba que se somos convidados surpresas para nós mesmos, somos para os outros também. Assim, me apresento de novo agora pra você: prazer, eu sou Natália. Eu gosto de ler, costurar, já tentei aprender violão e queria falar francês. E hoje sou sua convidada surpresa.


Quem é você pra mim hoje?