• Nati Aguilar

Coração na mão | E as nossas alternativas

Atualizado: 12 de ago.

Depois desse fim de semana, existe muito a ser dito, feito e pensado. Esse texto vai ser uma desagradável mistura de siricutico de branquelo com intelectual/acadêmico cheio de teoria. E vai ser bagunçado, mas espero conseguir fazer algum sentido e despertar sentimentos em você, assim você se questiona e me ajuda com minhas questões.


No domingo eu li um pouco do Caderno de Literatura Brasileira sobre o Ignácio de Loyola Brandão, publicado pelo Instituto Moreira Salles. Essa revista é dividida em várias seções e eu estava na parte em que os amigos dele contavam um pouco da amizade e dos anos de convivência. Entre os amigos está a Luciana Stegagno Picchio, crítica italiana responsável pela publicação de Zero na Itália, antes mesmo da publicação brasileira. Ela era especialista em literatura em língua portuguesa e fez dois comentários no texto dela que me fizeram passar o dia inteiro pensando. São elas:


Há escritores para consumo local e escritores para exportação

(…) e de novo aquela maneira de ficção urbana, feroz e absurda, nas formas do apólogo, bem afastada do clichê tropical a que nos tinha acostumado a literatura latino-americana de exportação, entrou na sua violência no horizonte de espera do leitor italiano, tornando-se metáfora da nossa triste modernidade.

Pensei no que raios seria uma literatura de exportação, uma literatura feita para se exportar. Há um tempo parei de fazer diferenciações entre literaturas. É tudo literatura, até bula de remédio. Mas existe sim uma finalidade diferente entre as literaturas e isso talvez seja extremamente importante para entendermos que existe uma literatura de exportação, uma literatura para ser vendida.


Posso pensar em exemplos muito óbvios, retirados do nosso momento atual. Harry Potter acabou de ganhar uma nova edição brasileira, assim como Crepúsculo e Jogos Vorazes ganharam mais um livro que, mesmo anos depois do momento de estreia e moda, venderam bastante.


Mas pra gente não deixar a discussão focada em livros majoritariamente adolescentes, podemos falar em Cem anos de solidão, Travessuras da menina má, O alquimista. Livros extremamente bem cotados pelo mundo, dois deles considerados literatura de qualidade (o que não acontece com os livros que citei antes) e ainda assim, são livros de exportação. Acho bom deixar claro agora que esse é meu entendimento.


Porque são livros extremamente conhecidos pelo mundo e que não exigem tanto conhecimento geográfico e histórico do país de origem para ser lido. São facilmente vendidos e lidos em qualquer lugar do mundo. O mesmo vale para o britânico 1984, o polonês Solaris, o coreano O bom filho, o angolano Uma escuridão bonita, o italiano A amiga genial.


Eu fui listando livros e mais livros do mundo inteiro na minha cabeça e pensando nos desafios que a gente vê pela internet, de ler o mundo ou algo assim. Nesse tipo de desafio, o que vale mais? O simples fato do autor ter nascido em certo país ou o livro ter discussões pertinentes ao país que veio?


Não sei se é porque fiz letras ou se eu sou simplesmente muito chata, mas pra mim realmente vale a leitura se ela me trouxer algo novo. Inclusive fico chateada de querer ler certos livros italianos em que a historia do país é tão intrincada ao livro que nunca foram traduzidos para o português e loja nenhuma importa. Esses livros não são de exportação e são os que justamente me trariam um conhecimento absurdo da literatura do lugar. Mas além da dificuldade de encontrar esses livros, eu sei da existência deles porque estudei italiano na faculdade e já tenho a facilidade da língua, o que não acontece com a literatura de outros países.


Nesse sentido, como driblar essas dificuldades e, mais importante, como saber quais livros ler? Como saber quais livros vão nos trazer um questionamento e conhecimento mais profundos sobre aquele país?


Veja bem, eu não sou contra ler livros de exportação de maneira nenhuma! Eles são a porta de entrada e são a melhor porta de todas. Mas ler apenas eles é como nunca sair da escada da piscina. Além disso, como posso eu, crítica de porão, resenhista de meia-tigela e autodidata fracassada, que escreve pra internet, como posso eu ajudar outras pessoas a ter acesso a livros com questionamentos mais profundos? O problema todo tem tantos níveis e dificuldades e me envolvem de tantas maneiras que eu me perco!


Mas domingo foi um dia longo demais e cheio de manifestações antifascistas e antirracistas, porque infelizmente, tivemos também manifestações fascistas e racistas. Eu me manifesto muito pouco sobre tudo isso na internet porque cada um sabe onde o sapato aperta mais e particularmente, odeio a frase ”quem se cala está do lado do opressor”. Existem muitas formas de levantar a voz e é sobre elas que eu quero falar hoje. Ou sobre algo parecido com isso.


Mas antes, pequena história de garota branca da classe média: fui dormir com um sentimento horroroso de quem não fez nada pra diminuir o racismo e esse sentimento me tomou de uma forma tal, que eu parei de acreditar em mim mesma e nas minhas opiniões. Como comentei no post anterior, estou lendo a biografia do Max Perkins e ele não era misógino, mas era bem sexista, cheio de frases prontas e preconceitos em relação a mulheres. Assim como Hemingway, autor da minha lista de favoritos e editado pelo Perkins, ajudou a terminar de instituir a imagem do homem macho, que vai pra guerra, que não tem medo. Autor que via o mundo como extensão da própria casa e todas as outras pessoas como público para seu sucesso. Algumas frases do Hem sobre os cubanos e negros eu simplesmente deixo passar porque não são elas quem moldam a literatura dele. Mas eu devia deixar passar?


Fitzgerald, meu outro queridinho, plagiava a esposa sem dó nem piedade. Zelda, coitada, era completamente incompreendida mas ainda assim, branca. Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Érico Verissimo. Todos brancos. Todos meus favoritos.


Onde estão os negros na minha lista de leitura? Onde estão os negros nos meus filmes favoritos, nos meus cantores favoritos? Como eu ouso me solidarizar com o movimento negro se esse movimento nem chega perto do meu consumo de cultura? (pensando que a cultura é meu meio de ganhar a vida, uma vez que sou editora e nas horas vagas eu literalmente só penso em livro, né?)


Acordei me questionando quantos amigos negros eu tenho. Quantos negros eu conheço? Me surpreendi percebendo que consigo contar nas mãos. Porque os lugares em que frequento, brancos em sua maioria frequentam. Mas por que os negros não estão nesses lugares também? Eu sei que existe uma resposta mas eu não consigo atinar qual é (digo, uma resposta além do racismo estrutural que a gente já sabe). Porque ela não diz respeito a mim, que sou branca. Mas minha mãe é negra. Eu não deveria saber? Mas não deveriam saber também minhas amigas que não possuem nenhum parente negro? Onde está o erro? Como podemos consertar?


E mais que isso: como consigo informação pra evitar pensamentos e atos racistas? Como posso ajudar outras pessoas a não terem pensamentos e atos racistas? Como eu posso usar meus conhecidos privilégios e minhas redes sociais para conscientização real e eficaz, não apenas repostando frases prontas em épocas de confronto?


Esse texto é uma grande ferida aberta que ainda não encontrou formas de cicatrização. Mas que alegria saber que hoje em dia nós temos remédios pra aplacar a dor e pesquisa suficiente pra fechar o machucado o quanto antes.



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