• Nati Aguilar

Coração na mão | E a vida que a gente vive

Eu acho engraçado porque eu criei essa parte Coração na mão aqui pro blog justamente pra escrever textos mais pessoais que tenham ligação com o meu coração físico ou que de alguma forma passem do meu coração físico para o emocional. Mas mesmo assim eu sinto como se devesse pedir desculpa, todas as vezes, por estar publicando aqui no Napolitano algo tão pessoal e que provavelmente não vai te acrescentar em absolutamente nada.

Mas é isso. Segue meu texto super pessoal que não vai te acrescentar em nada:


Ontem o pai de uma das minhas amigas mais próximas foi diagnosticado com covid-19 e já foi internado numa enfermaria. Não vou dar mais detalhes porque não existem detalhes a serem dados sobre a vida de outras pessoas. Basta dizer que nós duas estamos transtornadas e preocupadas, ela obviamente muito mais que eu, mas estamos. Pelo pai dela, pela mãe dela e por nós.

Já comentei que não sei como meu corpo reagiria ao vírus mas a verdade é que ninguém sabe como o próprio corpo vai reagir a um vírus desconhecido. Acontece que eu levei um susto ao ouvir da minha psicóloga que a minha vida inteira eu vivi pautada nos meus traumas. Eles me impediam de fazer várias coisas por medos as vezes irracionais e por outras vezes por medos de novos traumas.

E aqui estou eu vivendo meu 2020 tentando não enlouquecer dentro de casa porque realmente é doloroso estar dentro de casa e porque o medo muitas vezes tenta me impedir de ir ao mercado, mesmo eu sabendo que é imprescindível a ida ao mercado. E então vejo de novo meus traumas gritando que eu devo me proteger porque as infecções chegam chutando meu peito e atingindo meu coração sem avisos e que dessa vez eu não vou ter minha mãe me visitando no hospital com um livro diferente todo dia, nem meu pai pra me contar histórias de quando ele tinha minha idade. Se eu for internada nessa pandemia, vou ter que enfrentar o meu maior medo e trauma completamente sozinha. Saber disso é paralisante.

Ao mesmo tempo, estou lendo o Histórias lindas de morrer. O plano era ler só depois da pandemia porque são histórias de morte, por mais lindas e vivas, ainda são de morte. Mas tem sido uma boa ideia. A autora, Ana Claudia Quintana Arantes, a mesma de A morte é um dia que vale a pena viver, deu a dica de ler uma história por semana e durante a semana, viver pensando na personagem da história, como se a gente tivesse realmente conhecido pessoalmente aquela pessoa (sim, são histórias reais).

E eis que a história dessa semana era sobre esse menino de 13 anos em estágio terminal de câncer que pediu pros pais pra não voltar pro hospital. Seus dois maiores medos: os pais não lidarem bem com a morte dele e ele ficar tão mal no processo de morte que os pais desrespeitassem seu desejo e o levassem ao hospital. Como eu fiquei mal lendo isso!


Um belo dia eu tive essa conversa com a minha mãe. Que se eu precisar passar por outra cirurgia tão grande como a que eu já passei, eu não vou querer nem ir ao hospital. Se houver algum tratamento em alternativa, vou fazer. Se não houver, paciência. O resultado de ter sido tão sincera e aberta com ela foram muitas lágrimas, ralhos e gritos da parte dela, que dizia que eu não podia fazer isso, que eu tinha que viver, que eu não podia desistir da vida assim.

Minha mãe nunca entendeu, e nessa época pandêmica em que vivemos eu percebo que preciso fazê-la entender, que eu recusar uma cirurgia extremamente necessária e o tratamento em hospital é pra mim sinônimo de viver. Sofri bastante nesses quase 90 dias de isolamento social mas foi um sofrimento vivo, de descobrimento de coisas novas em mim, de colocar em dia vontades antigas, de reformular planos. Foram 90 dias reaprendendo a viver, ou antes disso, aprendendo que viver é não estar lutando pela própria vida 100% do tempo. Que uma experiência de internação te dá sim mais respeito pela vida mas não te proporciona o autodescobrimento necessário pra viver esse respeito.

Meus pais se sentem culpados por todos os problemas de saúde que tive, desde o problemático coração até a chata psoríase, mas a verdade é que essas coisas não entram na categoria responsabilidade de alguém. Mas eles se sentem pessoalmente atacados por elas e talvez tenha sido mesmo um purgatório muito difícil de passar o tempo em que precisavam correr de médico em médico com a Natália bebê. Mas eles viveram isso só uma parte da vida deles e apesar de na época eu não entender nada do que estava acontecendo, aquilo era só o começo da minha vida. Hoje em dia aquilo não é mais 100% do meu tempo, mas é uns bons 30%. Isso ainda é o plano de fundo de tudo o que eu faço. Eu ainda sinto isso tudo como uma ameaça e saber da ameaça me fez correr atrás de um tempo que não foi perdido mas que eu não quero perder.

Se aparecer uma surpresa desagradável no caminho, eu sei que eu vivi o máximo que consegui no tempo que me foi dado e eu sei que meus pais não têm consciência disso. Mas hoje percebo que eles não são os únicos. Nós temos pânico de morrer porque não assimilamos direito que o dia de amanhã é só uma grande probabilidade. Não vale a pena viver a dor hoje se a gente nem sabe se o sol vai realmente surgir no horizonte amanhã de manhã.

Relendo esse último parágrafo percebi que eu pude ter passado a impressão errada. Se não vale viver a dor hoje porque sabe-se lá se amanhã vai existir, é melhor escolher a vida mais gostosa possível hoje. Tomar aquele sorvete, dar aquele beijo, ir naquele cinema. Não devia existir a possibilidade \”deixar para depois\”.

A verdade, então, é como eu disse pra um amigo meu dia desses: eu gosto do cenário musical brasileiro porque pra tudo o que eu vivo é certeza que vai ter uma música que se encaixa. Então agora, eu juro que ouço a Paula Toller cantando que \”nada sei dessa vida, vivo sem saber\”…

#AnaClaudiaQuintanaArantes #Coraçãonamão

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