• Napolitano como meu pé

Coração na mão | De quando a gente não entende

Assisti ao filme Memórias de ontem do Studio Ghibli. É uma animação muito bem feita sobre nada. Mentira, eu que só não entendi mesmo. É sobre essa moça que está indo passar as férias no campo e enquanto pega o trem, se recorda de quando tinha 10 anos e convenceu a família toda a viajar no verão pela primeira vez. E o filme segue assim, mostrando sua rotina no campo alternando com recordações de seus dez anos. Me marcou demais um momento em que ela diz ter se esforçado a infância toda para parecer legal, falhando todas as vezes porque sempre soava falso, e que agora adulta, ela continua tentando e falhando pelo mesmo motivo.



Mas deixando de lado o fato de eu não ter conseguido relacionar as lembranças dela com o que ela estava vivendo, minha maior dificuldade enquanto assistia era unir a imagem dela criança à imagem dela adulta, enxergar aquela criança naquela adulta.

Logo em seguida eu fiquei meio sem saber o que fazer e fui assistir ao terceiro episódio de Abstract, uma série de documentários da Netflix sobre designers e artistas. Eu gostei demais do primeiro documentário, me inspirou muito porque consegui me conectar demais com o entrevistado. O segundo foi muito bom mas não mudou minha vida. O terceiro eu comecei e parei na metade há mais de um ano porque achei chato e sem relevância. Mas fiquei curiosa por causa de outra coisa que assisti semana passada e que não vem ao caso. O que acontece é que o terceiro documentário é sobre a Es Devlin, uma cenógrafa que criou alguns palcos incríveis para shows e peças de teatro. Um amigo insistia pra eu assistir esse episódio dizendo que era um dos melhores da primeira temporada e eu só deixando pra depois. Pois bem, eu assisti e vou ter que assistir de novo, porque ela compartilha tanta coisa com a gente que é impossível absorver tudo de uma vez.

A estética desse documentário é diferente dos outros e é um deleite, de verdade. Parece muito bem pensada e dá gosto de assistir. Ao mesmo tempo, a gente vai acompanhando ela criando uma peça pra exposição e ela deixa claro pra gente sua insegurança em relação a isso porque é uma peça extremamente pessoal e é a peça pela peça. Pela primeira vez ela fará algo que deve ser visto por inteiro e não pra compor a presença de um ser humano. E aqui, logo no começo do documentário, veio um baque pra mim. Enquanto na tela aparecia a imagem da Beyoncé, eu percebi o quanto a gente idolatra humanos e não é pra menos, existem pessoas como a Beyoncé no mundo e bandas como o U2 e não dar atenção a eles parece idiotice porque eles são mesmo seres humanos/grupo de humanos gigantes, não existia outra possibilidade na vida dessas pessoas a não ser serem vistas.

Mas eu me perguntei qual a diferença entre eu, a Beyoncé e o Bono, porque eles são vistos e eu não, o que eles fizeram que foi digno de nota que eu não tenho feito? Por outro lado, existe a Es, que criou cenários incríveis pra cada um deles, cenários que foram tão vistos quanto eles, mas ela mesma continuou escondida. Ela devia ser vista também.

E aqui começou outro baque. Porque a partir desse momento eu passei a prestar atenção na Es e em tudo o que ela falava e as palavras delas chegavam até mim com uma carga de personalidade muito difícil de encontrar por aí. Eu sempre fui muito sensível a isso, sempre estivesse preocupada em encontrar e demonstrar minha personalidade porque eu tenho essa fé incurável na humanidade e isso inclui uma fé em mim mesma. Encontrar pessoas como ela, que parecem ser e estar 100% do tempo centrada em si mesma de um jeito bom, é extremamente doloroso e encantador ao mesmo tempo. E eu entendi que talvez essa seja a diferença entre eu, a Beyoncé, Bono e a Es. Eles sabem quem são e fizeram algo com isso. A Es não só tem um olhar diferente pras coisas, ela faz você enxergar o mundo através desse olhar dela. Tudo nela tem uma força absurda que ela não deve nem notar porque faz parte dela. Ao mesmo tempo que ela parece saber muito bem cada uma de suas características, quase como se conhecesse de perto cada um dos seus fios de cabelo e poros da pele.

E com isso eu volto ao filme Memórias de ontem. Eu não consegui unir a personagem criança à personagem adulta mas isso não é um pecado porque ela mesma não consegue fazer essa união. Ela fica lembrando dessa menina que foi, quase como se aquilo tivesse acontecido com outra pessoa, ou um personagem que ela tenha criado. De repente perceber hábitos comuns entre essas duas pessoas parece uma surpresa estranha pra ela e não parece que ela existe longe das outras pessoas. Ela sozinha é uma constante de lembranças e as lembranças são ela subjugada a outras pessoas.

Já a Es, quando finalmente aparece alguém próximo a ela, os pais, eu fiquei com a sensação de que eles poderiam muito bem terem sido inventados. Não porque ela pareça ser uma pessoa solitária e sem vínculo com eles, mas porque ela é tão única no mundo que parece ter sido criada sozinha num processo de eterna lapidação.

E eu que sempre estive atenta às personalidades, tô tentando guardar todas essas sensações pra contar pra minha psicóloga na quarta-feira. Dizer pra ela que ainda me pergunto o que exatamente a Beyoncé e o Bono fizeram que os transformaram neles mesmos, embora eu saiba que a trilha de tijolos dourados seja única pra cada um.

#Coraçãonamão