• Napolitano como meu pé

Conversando sobre vontades e David Foster Wallace

Eu sei, há tempos sumi. Não posso dizer que isso é um retorno, mas sempre é. De qualquer forma, chegamos em novembro, mês de black friday e Festa do Livro da USP, que dessa vez vai ser virtual e sem as editoras que eu sempre espero: Companhia das Letras e Globo Livros ficaram de fora, assim como meus queridos Hemingway da Record. Não tá fácil pra ninguém e ficou mais difícil pra mim sem meus livrinhos como prêmio de consolação.



Mas novembro também é mês de parar pra pensar nos autores que nunca li mas quero tanto ler e sempre deixo pra depois por idiotice. Isso independe de qualquer promoção e por isso mesmo, dói. Porque lembrei de David Foster Wallace e sofro. Descobri que quero ler a obra ficcional dele antes de finalmente ler os ensaios que tanto me despertam a curiosidade mas quero tudo pra agora, incluindo o gigantesco Graça infinita (como adoro o título original desse livro! Infinit Jest tem um ritmo e som maravilhosos, às vezes fico repetindo pra mim mesma como forma de conforto. Se Donnie Darko estivesse sendo gravado agora e me fosse dada a oportunidade de estar por perto, eu trocaria a famosa frase sobre cellar door por infinit jest e o mistério continuaria o mesmo).


Enfim, tô obcecada por David Foster Wallace. Descobri os três livros publicados no Brasil e aproveitei um desconto que eu tinha pra e-book na Amazon e comprei o livro de contos dele, que está esgotado no formato físico. Obrigada Kindle pela graça alcançada. Mas quem me acompanha pelo Napolitano há algum tempo, sabe que minhas obsessões não passam assim (inclusive, você pode ler sobre isso aqui e aqui). Eu engoli tudo o que podia do DFW antes de finalmente decidir comprar esse e-book. E ele desceu pela minha garganta raspando tudo, rasgando a carne e fazendo arder curiosidades muito mórbidas: David se matou em 2008 e passou a vida colocando em seus textos a dor e a falta de sentido do viver, ao menos pelo que pude descobrir lendo por aí. Ele é idolatrado e a combinação de todos esses fatores me deixam na corda bamba.


Acho que vou por partes pra conseguir deixar claro até pra mim o que eu ando sentido em relação a tudo isso.

O SUICÍDIO

Me encheu o saco a importância dada ao suicídio dele. Quase não comprei nada por causa disso. Uma vida não pode ser definida pelo suicídio dela, pode? Mas então lembrei de Sylvia Plath, Primo Levi e do meu querido Hemingway. Eu sou da opinião clichê de que tudo que a gente escreve passa antes pela peneira transformadora de que é feita a nossa vida. É óbvio que nossa vida não define se somos suicidas ou não, mas ser suicida muda a forma como os outros enxergam a nossa vida. Socorro, não sou suicida, usei o plural porque sou péssima escritora e só sei escrever assim!

Mas voltando: eu entendo que talvez a obra dele seja cheia de um pessimismo travestido de ironia e escondido em comédia e que isso talvez fosse algum traço da personalidade dele (eu tô chutando muito aqui, por favor!) mas me dá um certo asco ler tanta gente comentando sobre o suicídio e falando métodos como se ser jornalista de alta circulação desse carta branca pra tão fria abordagem de uma característica tão presente nos textos dele. Acho que o que eu quero dizer é que se o pessimismo, suicídio e depressão são traços marcantes ou presenças certas na obra de alguém, isso não significa a desnecessidade de delicadeza para comentar o assunto. E eu não senti lá muito cuidado.

Também me incomoda, e aqui eu entro no alvo, a fascinação que o suicídio de alguém gera em torno desse alguém. Eu li Sylvia Plath por isso, me fascinei mais por Primo Levi depois de descobrir o suicídio dele (exatamente no dia do meu aniversário, muitos anos antes de eu nascer) e continuo tentando entender a decisão do Hemingway lendo desesperadamente tudo dele. Mas isso entra no próximo tópico.


A ADORAÇÃO

David Foster Wallace é adorado. Aparentemente a adoração chegou pra ficar depois de Graça infinita, considerado um dos melhores romances do século XX, sendo o próprio DFW chamado de voz de sua geração. É claro que isso não podia dar certo, pensando ainda na depressão dele – e de novo chutando. Só consigo lembrar do Fitzgerald que também foi a voz de uma geração e acabou destruído, bêbado, sem conseguir escrever e morreu também muito novo, de causas naturais, mas também infeliz.

Eu sou muito influenciável pela crítica e se dizem que Graça infinita é um dos melhores romances do século XX, eu acredito e quero ler e criar meus próprios argumentos pra explicar minha crença, porque eu sei que vou concordar. Só de olhar o plot da coisa já me dá um comichão de “vou adorar isso aqui” e de olhar pro quilo e meio da edição brasileira me aparece um arrepio de “vai ser maravilhosa a jornada por esse livro”. Mas me amedronta a ideia de ser mais uma seguidora dele, me enoja a ideia de talvez ficar tão mergulhada e intoxicada pela escrita dele que eu acabe esquecendo de questionar o que li. Esse ponto entra em outro tópico, mas calma que ainda não terminei.

Sou uma pessoa estranha, que adora os clichês, como The Beatles, mas que foge deles também. Um exemplo? Sempre torci o nariz pro John Lennon, meu beatle favorito é o George Harrison que, olha só a coincidência, tem a melhor carreira solo do grupo (se você não concorda, não ouviu direito). Mas o John é idolatrado e teve mesmo uma carreira sensacional, mas alguns detalhes tornam ele uma pessoa meio sórdida que eu não consigo engolir. E como eu disse ali em cima, tenho medo de acabar idolatrando o David Foster Wallace e me cegar pra alguns pontos dele que talvez não sejam justificáveis. Como talvez já mostre a polêmica.


A POLÊMICA

David Foster Wallace namorou, no começo dos anos 90, a também autora Mary Karr, que aparentemente nunca escondeu o fato de ter sofrido um relacionamento no mínimo esquisito com ele. Aparentemente ele era stalker e bastante violento, o que me assusta. Quero dar voz pra um cara assim?

Ao mesmo tempo, o quanto eu quero perder a voz dele por uma polêmica que surgiu anos depois da morte dele? O quanto eu deslegitimo completamente a voz dela ao me questionar o que acabei de questionar?

O quanto eu deixo de ouvir John Lennon e David Bowie, o quanto deixo de assistir Wood Allen, o quanto não leio J. K. Rolling por não concordar com o jeito que eles viveram ou acreditaram?

Tenho uma consciência absurda que isso é uma questão antiga, não DFWxMK, mas do quanto nossas convicções devem intervir no que a gente gosta de consumir em matéria de arte, mas não consigo parar de me questionar tudo isso o tempo todo.

Por outro lado, me dá certo alívio pensar que ele não está mais vivo para receber o dinheiro que, eu tenho certeza, vou acabar dando pra ele.

O RESULTADO

No final das contas, eu mergulhei no David Foster Wallace e agora tô cercada por ele. Pra todo lado que olho, existe a figura dele lá. Hoje mesmo começo esse livro de contos e posso só rezar pra não ficar cega nem me deixar levar por opinião alguma. Mas eu me conheço, sei que o primeiro mergulho que dei hoje vai ainda ser mais profundo a partir desse livro. Inclusive, como eu gosto de ler contos com calma, vou aproveitar pra assistir nesse fim de semana, o filme O final da turnê, sobre uma entrevista concedida por ele ao jornalista David Lipsky. Mas chega de falar do Foster Wallace. Vamos à promessa de eu voltar a ocupar esse espaço?


#Conversandosobre #DavidFosterWallace