• Napolitano como meu pé

Conversando sobre responsabilidades femininas

Eu não sei se eu já comentei por aqui, mas quem me segue no instagram e no twitter provavelmente já sabe: eu sempre leio dois livros ao mesmo tempo. Um enquanto vou e volto do trabalho e outro durante o almoço.


Geralmente esses livros nada têm em comum, mas nossa cabeça adora conectar coisas, então eu sempre acabo vendo as discussões de um no outro. E bem, dessa vez não foi diferente e enquanto eu lia uma matéria do jornal O Globo a respeito das declarações de Bolsonaro e Paulo Guedes sobre a aparência da primeira-dama francesa, percebi que essa discussão é bem antiga. Ou melhor: nós mulheres estamos falando disso há muito tempo e pelo que pude perceber, não estamos sendo ouvidas.

Eu percebi a antiguidade da questão relacionando passagens dos livros Orlando da Virginia Woolf e Mulherzinhas da Louisa May Alcott, que no caso, são os livros que estou lendo no momento.

Como eu disse, os dois livros são bem diferentes: Mulherzinhas acompanha um ano da vida dessas 4 irmãs enquanto o pai não volta da guerra e Orlando é a biografia desse homem que viveu cerca de trezentos anos e que no meio da vida misteriosamente se transforma em mulher.

Seguindo a linha de pensamento que me surgiu, nessa sexta-feira eu comecei o capítulo 4 de Orlando, onde ele finalmente se torna mulher, depois de um longo sono. Existe uma passagem maravilhosa em que ele (na verdade ela) tenta descobrir quem é e o que gostaria de fazer da vida e pensando agora, nenhuma das reflexões feitas por ela nesse momento se relacionam ao fato de ter se tornado mulher. Entretanto, quando ela finalmente descobre que precisa voltar para a corte e embarca num navio, as coisas mudam. Ela percebe que precisa mudar seu modo de vestir e agir e esse trecho é de cortar o coração, principalmente porque seguimos com as mesmas preocupações.

E é sensacional: ela começa a perceber que enquanto era homem e lutava com espada, escrevia, flertava com todas as moças que apareciam na sua frente e estava autorizado a visitar todos os lugares possíveis, as mulheres da corte serviam chá para ele e se apresentavam bonitas e bem-vestidas e isso era todo o esperado delas. Mas veja bem: ela só se dá conta disso porque de repente precisava esconder os tornozelos, devia aceitar toda a ajuda que um homem pudesse dar e aprender a arrumar o cabelo, se maquiar, falar com delicadeza, parecer frágil. É impressionante ela percebendo que se o navio afundasse, ela não conseguiria sobreviver pelo simples fato de seu vestido ser grande e pesado, impossibilitando o movimento das pernas.

Ela começa a se achar tola por tudo o que fez anteriormente. E o que ela fez? Ora, se uma mulher não estivesse apresentável, a resposta automática dos homens era falar mal dela. Se uma mulher estivesse mal vestida ou não tivesse bons modos, era mal vista, mal falada, não servia para absolutamente nada. Lady Orlando ainda lembra, no meio de seu desespero, que ela como mulher era diferente porque sabia ler e escrever. Acho que deu pra perceber a presença da mulher na era elisabetana.

E então, em 2019, o presidente do país X aparece na internet fazendo piada da aparência da primeira-dama do país Y, mais influente mundialmente e que pode ser a opinião-chave para evitar acordos futuros e importantes. Mas claro que não parou por aí. O ministro da economia do país X achou de bom tom comentar pejorativamente a aparência da tal mulher.

Veja bem, o problema não é o comentário pejorativo. O problema é qualquer comentário sobre a aparência de uma mulher, porque convenhamos: eu não gostaria de estar no lugar da Michelle Bolsonaro neste momento. Quando comparam a beleza de duas mulheres, ambas estão sendo objeto. Mesmo que ela tenha sido colocada como objeto com maior valor na piada infeliz, ela ainda é um objeto, com o claro objetivo de ser bonita ao lado do presidente. E desde o início do governo do marido ela vem buscando não ser só uma decoração. Mas do que adiantou tanto esforço se os homens ao seu redor continuam enxergando a moça como objeto?

No livro da Virginia, Lady Orlando percebe com certa surpresa, que mulheres precisam se esforçar para estarem bonitas e apresentáveis 100% do tempo, e que elas não possuem o dom natural para toda essa graça, assim como os homens também não.

Mas onde tudo isso se conecta com Mulherzinhas, você me pergunta. Existe uma passagem no livro que por um certo motivo uma personagem precisa vender seu cabelo. Quando aparece em casa com a cabeça raspada, as irmãs se desesperam dizendo que ela vendeu a única coisa bonita que possuía.

Ora, essa personagem em questão é a mais redonda do romance, com uma vontade profunda de fazer o que é certo, mesmo que muitas vezes ela tenha que conter seu gênio forte – e ela realmente se esforça para isso! Mas todas as virtudes dela são rebaixadas quando é colocado que a única coisa bonita nela é o cabelo. Ela trata as irmãs com cuidado, se preocupa com a tia, procura ser boa amiga, ajuda nos afazeres domésticos, mas a única coisa que importa é o seu cabelo, nada que não seja seu cabelo é bonito.

Mas perceba que quem inicialmente a rebaixa são as próprias irmãs. É muito fácil gritar pro mundo expondo a atitude machista de um homem, mas precisamos aceitar que mulheres também são machistas. E mulheres feministas também podem agir de forma machista. Tenho 25 anos e há 25 anos vivo em uma sociedade machista, sociedade machista que há séculos é machista.

Então acho que eu só queria deixar salvo aqui que a gente tem sim que ficar bravo e se revoltar contra todas essas declarações objetificadoras de mulheres porque os tempos não são mais os mesmos. Não vivemos na era elisabetana para nos preocuparmos em seguir um livro de regras. Mas esse livro de regras ainda existe e só vai ser esquecido se nós nos rebelarmos contra ele e brigarmos com todos que continuam nos forçando a usá-lo. E ninguém pode nos forçar, nem nossos pais e irmãos ou o resto da nossa família. Nem nosso namorado ou marido. Muito menos nosso presidente ou ministro da economia.

#Conversandosobre #LouisaMayAlcott #Orlando #Mulherzinhas #VirginiaWoolf