• Nati Aguilar

Conversando sobre referências

Atualizado: 23 de abr.


Em dezembro (talvez novembro?) de 2020 eu descobri uma lista de livros indicados pela Elena Ferrante. Eu estava na maior ressaca literária dos últimos três anos e me surpreendi com a vontade de ler todos aqueles livros agora! Fui dando uma olhada na lista e pesquisando os preços, até chegar em Destinos e Fúrias (Lauren Groff) por R$11,90. Comprei. Devorei.


Mas devorei daquele jeito sem pressa. Você lê cada palavra sentindo o gosto dela e quando vê, o livro chegou ao fim. Ele é dividido em duas partes: destinos e fúrias e até parece bem óbvio e em algum momento você se pega lamentando o clichê da coisa. Um casal se conhece, Lotto e Mathilde. Se apaixonam e se casam em duas semanas. Você sabe que vai dar errado, você sabe que aquela janela linda vai rachar.



Lotto quer ser ator e até parece ter um certo talento pra coisa mas nunca deslancha. Metade do livro seguimos a vida dele e o casamento feliz que ele tem com a Mathilde, mas enquanto isso, se você for sensível o suficiente, vai pensar que ela não se encontra no mesmo casamento que ele. Ele descobre ser um escritor de teatro fabuloso, faz sucesso, dinheiro, fala asneiras, nada nunca dá errado pra ele. E a Mathilde?, você me pergunta.


A Mathilde apoia o Lotto, dá suporte, mantém a casa de pé para que o marido possa brilhar. Mas se você for sensível, vai perguntar de novo: e a Mathilde?


No final de 2020 comecei a ler A mulher do viajante do tempo (Audrey Niffenegger). Há anos eu assisti ao filme e me apaixonei. Precisava ler aquilo, precisava saber como tudo aquilo foi posto em palavras, precisava saber da narrativa, ver o lado da esposa, a pessoa que não vive as aventuras de viajar no tempo.


Quem viaja, como diz o título, é Henry, seu marido. Ele viaja completamente sem controle mas nunca se afasta muito dos seus eus passados ou futuros ou de Clare, a mulher (passada ou futura). A narrativa, então, vai intercalando narrativas da Clare e do Henry: como eles se conheceram quando ele era trintão e ela tinha seis. Como eles se conheceram de novo quando ele tinha 28 e ela vinte. Como eles foram se encontrando ao longo dos anos nas viagens que ele fazia. Mas se você for sensível o suficiente, vai me perguntar: e a Clare?



A Clare fica mantendo a casa no lugar, se certificando de tirar o marido de enrascadas quando ele volta para o tempo presente e inclusive, fica sentada esperando-o aparecer, o Henry do passado ou do futuro. Mas se você for sensível, vai perguntar de novo: e a Clare?

Quer dizer, é ela no título do livro, é sobre ela que eu quero saber. Eu quero saber dos poetas que ela gosta (não dos que ele falou que ela gostava e ela passou a gostar). Quero saber de todas músicas que ela gosta (aquelas que ela ouve quando ele não está em casa porque ele não as suporta).


O que me incomodou foi que em Destinos e Fúrias os personagens são muito redondos e a gente sabe logo no início quais são os calos deles e sente que todos os calos vão ser cutucados ao longo da leitura. Mas depois de passar páginas e páginas e capítulos ouvindo sobre o Lotto, sobre a fácil infância rica dele, sobre alguns traumas que nunca são realmente enfrentados mas também não o atrapalham, a gente entra no mundo da Mathilde e ela é uma personagem rica, afável e hostil ao mesmo tempo, tão complexa que tudo o que é dito dela ainda é pouco. Ela é a personagem do livro, é dela o destino e é dela a fúria. Ela ficava em casa e mantinha o teto funcionando acima deles e o Lotto só existiu em toda a sua fama por causa dela. E quando finalmente lemos a parte dela da história, vemos que a Mathilde existia além do Lotto muito mais do que ele existia além dela. Que a vida dela continuou depois dele, mesmo que aos trancos e barrancos.


Mas quando lemos A mulher do viajante do tempo e paramos pra pensar no que a Audrey tá contando pra gente, percebemos que não conhecemos Clare, não conhecemos a tal mulher do viajante no tempo. Ela vive em função dele mesmo quando o relacionamento nem existia mais. E aqui eu chego onde eu gostaria de chegar: se eu não tivesse lido Destinos e Fúrias antes, eu nunca teria percebido o quão injusta a autora é com a Clare!

É claro que A mulher do viajante do tempo e Destinos e Fúrias são livros com propostas completamente diferentes. Um vai explorar porcamente a ideia da viagem no tempo em nome de um “amor verdadeiro” enquanto o outro explora os papéis desempenhados por cada membro em um relacionamento. É um pouco cruel comparar os dois livros, mas nossas opiniões sempre são criadas de acordo com as referências que nós temos. Portanto, ao mesmo tempo em que é cruel comparar os dois livros, é também inevitável.


Eu gosto muito de pensar em como nossa percepção do que consumimos muda quando transformamos em natural certos questionamentos. E no caso, acho que talvez nem preciso entrar na palavra feminismo pra ser clara. Só de ler atentamente A mulher do viajante no tempo já percebemos que da mulher não sabemos nada a não ser um romantismo absurdo e fora de época. E que é preciso aguentar metade do livro Destinos e Fúrias pra perceber o quanto somos enganados por nosso próprio preconceito e estereótipo. Agora, se eu falar a palavra “feminismo”, a coisa fica mais pesada. Mas estou com certo peso nos ombros hoje, então vou deixar esse papo pra depois.


De qualquer forma, pra finalizar, quero só deixar anotado que eu me orgulho demais dos meus questionamentos. Eles ainda não aparecem assim tão naturalmente, mas existe uma rotina em mim de ler e parar pra pensar no que foi lido. E isso já é um avanço absurdo pelo qual mereço a brilhante estrelinha de “Não fez mais que sua obrigação”.

E agora, em abril de 2021, depois de ter lido A mulher do viajante no tempo, Destinos e Fúrias, Daisy Jones and The Six (Taylor Jenkins Reid), Alice e Ulisses (Ana Maria Machado) e Pessoas Normais (Sally Rooney), a minha leitura foi ficando cada vez mais exigente. E talvez essa seja também um dos motivos, se não fundadores, continuadores da literatura: a partir dessas leituras ficou exigente também a minha relação com todas as outras pessoas.



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