• Napolitano como meu pé

Conversando sobre personagens excêntricos

Você talvez já saiba, mas li Minha querida Sputnik em janeiro. Se você não sabe, pode ver aqui o que achei do livro!



Mas pra você se situar sobre o que quero conversar hoje, dou uma recapitulada sobre o que se trata o romance.


K., professor de escola primária, é o narrador da história de Sumire, sua melhor amiga por quem é apaixonado. Focando seu olhar nela pra só mais tarde falar de si, seus sentimentos pela moça são facilmente percebidos logo nas primeiras páginas.


"Sumire era uma romântica incurável, aferrada a seus hábitos - um pouco inocente, para citar algo simpático." (p. 8)

E é justamente dessas primeiras páginas que eu quero falar aqui. Para K., a Sumire é a mulher perfeita, cheia de opinião e personalidade. Ela não se importa com o que os outros pensam, não se incomoda em sair bagunçada de casa, com pés de meia destoantes. Não se importa de não se maquiar, não se importa em ser magra demais. A única coisa que importa pra ela é o livro que irá escrever. Ela larga tudo pra poder um dia terminar de escrever o livro que, ela espera, será o grande sucesso mundial.


Como melhor amigo, o K. acompanha todos esses movimentos de Sumire. Entretanto, em uma esfera mais intimista, K. está sempre disponível (inclusive enquanto dorme!) para salvar a Sumire de todo e qualquer problema que possa se assomar sobre ela.


Por sorte o livro se desdobra sobre outras questões e o que acontece em seguida é forte e complexo demais para K. continuar focado apenas na amiga, mas esse começo foi o suficiente pra me fazer mais sensível à imagem da mulher idolatrada pelo homem que nunca é visto romanticamente por ela.


Eu cresci com histórias assim e eu aposto que você também: a mulher é incrível, cheia de uma personalidade que transborda na forma como ela vivencia o mundo e se apresenta a ele, principalmente porque tudo nela é diferente das outras garotas. O modo de se vestir, falar, arrumar o cabelo, se divertir. Mas mais que isso, ela aparece na vida do protagonista e vira tudo de cabeça pra baixo e olha só, quem diria, o cabeça pra baixo é o lado certo pro protagonista que no final, precisa salvar a tal mulher que obviamente tem uma dificuldade de discernir o que é bom pra ela romanticamente, profissionalmente, domesticamente.


"Se houvesse uma fotografia de Sumire tirada nessa época, não tenho dúvida de que seria um registro valioso de como certas pessoas são especiais." (p. 8)

Eu acabei de descrever, de forma bastante porca e enviesada, a ideia da Manic Pixie Dream Girl, que aparece principalmente em comédias românticas e o grande problema de histórias assim, é que elas são o que há de mais comum nas narrativas que a gente vê por aí: nos livros, nos filmes e até nas músicas (inclusive, vou focar nas músicas daqui a pouquinho!). Por serem o ponto mais comum, a gente acaba entendendo que esse é o normal e desejável de uma experiência de vida no que diz respeito a relações amorosas.


Obviamente quando eu digo "a gente", acabo por generalizar todo um grupo de mulheres - e homens também! - mas não consigo evitar. Conheci muita gente na vida e realmente uma pequeníssima minoria não sentia a vontade de ouvir um "você é diferente das outras". Ou, se não chegava a tanto, sonhava com atos românticos que viram serem reproduzidos por aí aos montes, de forma a ficar incrustado na cabeça.


Mesmo inconscientemente a gente passa a se inspirar em um modelo de personalidade e relacionamento e aqui de novo eu generalizo pra todo mundo, homens e mulheres. E é claro que com o passar do tempo e com a construção de relacionamentos reais, a gente vai percebendo que a coisa não é bem assim e que todo mundo é apaixonante e mais que isso: a gente percebe que ninguém precisa ser salvo. Mas então por que é que a gente continua consumindo essas personagens? Por que é que elas continuam existindo aos montes?


Digo, será que é evitável esse tipo de personagem? É evitável a criação delas, o consumo delas e a nossa imitação delas? (é que preciso ser franca aqui, algum amigo um dia disse que eu era uma Manic Pixie Dream Girl e desde então estou perturbada!). Por que os filmes que mais gosto de assistir ou que ficam na minha memória por mais tempo são justamente aqueles com personagens femininas que se encaixam nesse padrão mesmo que minimamente?


Claro que todas essas perguntas foram feitas por mim para a pessoa que eu sou. A pessoa que adora a Clementine sendo um furacão bagunçado e desejante de um começo todo novinho só pra ela, a Amélie Poulain e sua vontade secreta de ser adorada e reconhecida por seu olhar atento, e a Ramona Flowers se esforçando para viver desgarrada porque sabe que qualquer contato humano é a possibilidade de uma raiz emocional. Eu sou a pessoa que adora qualquer uma das irmãs Lisbon, porque cada uma delas é de uma procura detalhista da personalidade marcante.


Mas te contar que essas questões só apareceram forte em mim enquanto lia porque foi bem na época em que a trend Love grows surgiu no tiktok e no instagram e abalou as minhas estruturas. Agora é muito fácil fazer de si mesmo um personagem incrível e mais fácil ainda se sentir mal porque todo mundo é um personagem mais incrível que a gente. E então eu fui mergulhando nas músicas sobre mulheres. É claro que essa discussão não tem fim porque ela se desdobra em várias. Mas além de poder clicar nos nomes ali em cima pra assistir ao trailer dos filmes, você pode ver abaixo um vídeo da trend que comentei e a playlist que fiz com as músicas que garimpei.



Lembrando que você pode, como sempre, comentar mais dessas histórias pra eu conhecer e histórias que subvertem isso. Além, claro, de músicas que vão alimentar minha playlist com muito carinho.



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