• Napolitano como meu pé

Conversando sobre os olhares demorados das paixões

Há dois anos enrolo pra continuar a leitura da biografia do Max Perkins. Então vamos aos poucos: quem é Max Perkins?


Max Perkins é um editor incrível, ele editou, entre outros, F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Esses dois autores estão na minha lista de autores favoritos da vida há pelo menos dez anos, porque mesmo tendo lido muito pouco de cada um deles, o que eu li entrou em mim de um jeito muito especial e definitivo.

Ler sobre o Perkins significa muito pra mim. Significa ler sobre autores que eu amo, sobre uma época que carrega tantos mistérios pra mim, sobre um mercado editorial que eu gostaria de conhecer mais e sobre a carreira de editor de livros, que me fascina desde os 16 anos e da qual faço parte desde os 21. É uma delícia ler essa biografia, tem sido uma das leituras mais gostosas dos últimos dois anos. Por que eu demoro tanto pra concluir? Não sei.

Mas acho que tô aqui pra falar de outra coisa. Na verdade nem sei do que eu vim falar, eu simplesmente comecei a escrever. Então calma, vamos aos poucos.

Enquanto lia sobre o Perkins nesses dois anos, muita coisa aconteceu que me trouxe pra mais perto dele ou que me fizeram admirá-lo ainda mais. Reli \”O grande Gatsby\” e \”Por quem os sinos dobram\”, o que me fez ter a certeza absoluta que eu realmente amo esses dois autores. Eu percebi que nos últimos anos o meu censo crítico ficou muito mais afiado, eu consigo perceber com mais clareza os pontos fortes das obras que entro em contato. Isso é terrível porque estou menos disposta a perdoar certos livros e filmes que antes eu até aceitaria, mas me mantém mais ativa pra mergulhar com mais propriedade nos autores que gosto e nos seus processos. Isso inclusive está sendo mágico e o Perkins tem me ajudado a ser mais assertiva nas leituras que gosto.

Na quarentena sinto falta de alguns livros que estão na casa dos meus pais, livros que eu deixo por lá justamente por não ter tempo aqui de me dedicar a eles. Ao mesmo tempo, eu olhava para os livros que estão aqui e sentia uma preguiça muito grande deles.

A psicóloga do meu ex-namorado costuma dizer que preguiça na verdade é falta de incentivo pra fazer algo e devo dizer que acho que concordo. Enquanto retomava a leitura da biografia do Perkins, descobri que queria ler outra livro do Hemingway e aproveitei que \”Ter e não ter\” está por aqui e mergulhei. Normalmente eu dou um respiro bem fundo e comprido antes de começar qualquer livro dele porque eu sei que vai ser uma leitura extremamente intimista e dolorosa. Mas dessa vez eu nem pensei, só comecei.

E foi ótimo porque foi o primeiro livro dele que não tropecei no começo, ele já começa a história com tudo, sem dó nem piedade do protagonista (ou do leitor!). Mas agora acho que cabe segurar a onda e falar sobre outro ponto que tem sido comum em mim ultimamente.

Há alguns dias meu whatsapp estava lotado de mensagens não lidas sobre diários. Perguntei pra todos os meus amigos mais próximos se eles tinham ou já tiveram diários. Começou a me incomodar a minha dificuldade em escrever alguns detalhes, a descrever coisas pequenas, minha opinião de que só grandes acontecimentos merecem ser narrados. Quando descobri que o Ignácio de Loyola Brandão escreve diários, pirei e comecei a escrever também. Mas é difícil não parecer apaixonada demais escrevendo, parece tão errado frente a um mundo tão descrente em tudo.

Mas ler as cartas do Perkins pros autores e pra melhor amiga me ajudaram a perceber que se não for pra ser diferente nesse mundo, é melhor nem fazer nada. E se não for pra olhar tudo com paixão, por que raios então a gente vai olhar? O modo como ele sempre encoraja as pessoas ao redor é encantadora!


\”Ninguém gostaria de ser uma entre cem cores em uma caixa\”

Cena da primeira temporada da série Mad Men

E então fui começar a leitura de \”Ter e não ter\”. O livro se passa entre o cais de Havana e o cais de Key West e o Hemingway descreve todo o movimento e as pessoas como se estivesse realmente lá. Parece que se eu pisar em cada um dos lugares do livro, vai tudo estar perfeitamente como ele descreveu. É engraçado isso, porque nenhum outro autor me fez sentir assim. Eu tinha reparado na forma dele descrever as coisas com \”Por quem os sinos dobram\”, que colocou Valência na minha lista de cidades pra se visitar e agora eu tô doidinha pra conhecer Cuba! Principalmente essa Cuba de trabalhadores do mar que o Hemingway tanto descreveu em \”Ter e não ter\” e \”O velho e o mar\”.

Me deu mais saudade de São Paulo, porque eu percebi que os detalhes são o que fazem o mundo girar e eu esqueci tanto dos detalhes! Só consigo pensar nas coisas grandes das cenas. Cada um de nós é um detalhe de uma cena e cada um importa. Eu tô sentindo falta de ter um olhar mais apurado pro mundo e pra beleza crua que aparece nas coisas mais banais. E agora, em plena dúvida que surge diante de uma reabertura comercial que me soa irresponsável, quero cada vez mais que toda essa situação pandêmica acabe porque o mundo nunca me pareceu ser uma promessa tão grande.

#Conversandosobre #ErnestHemingway #MaxPerkins