• Nati Aguilar

Conversando sobre morrer ou algo parecido

Atualizado: 13 de ago.


Eu tenho muita dificuldade em falar dos livros que eu gostei demais. Eles normalmente me pegam lá no fundo dos assuntos pessoais e eu nunca sei falar dos livros sem eu mesma me abrir como um.


Mas eu li A máquina de fazer espanhóis em setembro e A morte é um dia que vale a pena viver agora em novembro. E bem, eu acredito nesse tal poder transformador dos livros e mais uma vez eu experimentei dele. Sempre achei estranha a ideia de morrer. Não a ideia da minha morte, mas a dos outros. E essa estranheza foi me cercando cada vez mais com o passar dos anos e me afogou ano passado. Desde então estava eu dentro dela sem respirar.

E então dou de cara com A máquina de fazer espanhóis que vai tratar bastante sobre essa fase que a maior parte de nós passaremos: a velhice. A morte vem como consequência (que no caso é inevitável mesmo) e o livro explora demais tantas formas de se relacionar com tudo isso: morte, velhice, amizade, amor, religião, política.


Ele é todo um livro sensível. Eu nunca tinha lido nada do Valter Hugo Mãe e me deu vontade de pular inteira em tudo o que ele escreve. Mas como esse livro nenhum outro será. Inclusive, não recomendo a leitura se você perdeu avós recentemente. Mas acho que isso entra mais pra frente nesse texto.


Para contextualização rápida, o livro é sobre esse senhor que perde a esposa e é colocado num asilo pelos filhos. Os sentimentos nele são muitos e certeiros, ele sabe o que está sentindo e não tem dó de falar deles para as pessoas quando não aguenta mais. Obviamente isso magoa muitas delas mas é delicioso ler esse velhinho vivendo, sabendo que a vida é dele, sabendo quem ele é e sentindo efetivamente cada sentimento.


É delicioso pra mim assistir de perto pessoas vivendo os próprios sentimentos de forma tão completa. Eu não sei o que é isso e foi-se um bom ano de terapia pra perceber esse hábito em mim. Talvez vá outro tanto até eu começar a sentir tudo direitinho. Mas viver é inspirador e eu adoro esses autores que fazem personagens que vivem.


Que A máquina de fazer espanhóis é daqueles livros que ficam com a gente, acho que deu pra perceber. Acho que pra cada um vai ficar uma partezinha. Pra mim, ficou essa parte de o nosso corpo ir se adaptando a tudo o que a gente vive e ir morrendo aos poucos. A gente envelhece e a gente morre. E talvez a gente não viva nesse meio tempo. Mas acho que tô me antecipando de novo.


Minha vó morreu há quase um ano. Não é mais uma ferida aberta mas é um machucado mal cicatrizado. Eu li o livro do Valter Hugo Mãe e agradeci aos céus que ela pôde morrer pertinho da gente, com todo mundo se importando com ela, com visitas todos os dias (era tanta gente visitando minha vó que a gente mal tinha tempo de conversar um pouquinho com ela).


De qualquer forma, minha vó morreu e eu ainda choro copiosamente por causa disso.


E então apareceu o livro A morte é um dia que vale a pena viver. E como falar desse livro? A Ana Claudia Quintana Arantes trabalha com geriatria, oncologia e pacientes em estado terminal e defende a morte natural. Não vai caber a mim explicar aqui o que seria a morte natural. Mas ela é muito didática e passa o livro inteiro dando tapas na nossa cara sobre o que é morrer e o que é viver. E sobre o que é ver um ente querido morrer. E sobre o que é morrer e viver com qualidade.


Foi outro livro que me impactou a nível pessoal (talvez seja a terceira vez que eu digo isso nesse texto). É daqueles que te mudam ou deixam uma semente que vai germinar. Daqueles que você lê e fica relendo as partes mais tocantes. Daqueles que você termina e já deixa um recadinho preso na capa: me leia de novo, por favor.


Acho que deu pra perceber que eu não sei o que falar. Todas as palavras foram ditas naquele livro e sobra nada pra quem leu dizer. Talvez eu esteja apenas falhando miseravelmente.


Mas eu sei que estava separando os livros que eu vi nos últimos dois meses para levar de volta pra casa dos meus pais e deixei os dois juntinhos porque pra mim eles se complementaram de um jeito lindo. Inclusive, se posso sugerir algo pra você, é que leia um depois do outro. Em seguida. Sem pausas. Eu juro que vai ser daquelas experiências que te mexem inteiro, parece que a gente saiu de uma máquina que tirou tudo do lugar pra limpeza e jogou fora o que era desnecessário.


E eu vou parar esse texto por aqui porque se tem uma coisa que eu aprendi em Letras é que um texto tem que comunicar alguma coisa e eu sei lá o que esse aqui tá comunicando.


Até a próxima!


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