• Nati Aguilar

Conversando sobre as vozes na nossa cabeça

É possível saber diversas coisas sobre mim só com o contato com as redes sociais. Quem me conhece pessoalmente acaba sabendo um pouco mais, mas ando abrindo as portas da vida pessoal também no instagram e twitter do Napolitano e é possível ter um vislumbre um pouquinho mais certeiro de quem eu sou por ali. Ou de quem eu quero que vocês pensem que eu sou. Mas essa é discussão pra outro dia.


De qualquer forma, se tem uma Natália que eu tento não mostrar pro mundo, é a Natália que se divide em milhares dentro da minha cabeça e que não para de falar coisas que não devia. Infelizmente, quem convive comigo acaba se deparando com ela de alguma forma nada agradável.

Eis que estou lendo Rebecca (Daphne du Maurier) e levei um susto horrível durante a leitura. O livro é narrado em primeira pessoa e como eu acabei de ler A outra volta do parafuso e a leitura concomitante é Dom Casmurro (ambos de narradores não confiáveis), eu estou desconfiando de absolutamente tudo o que a personagem principal fala.

Mas o susto veio aos poucos, preparando caminho pra algo maior. Logo no comecinho, lá pelo terceiro capítulo, eu comecei a imaginar a personagem principal com a cara da Kristen Stewart em Crepúsculo, aquela cara de sonsa, de menina sem nada a acrescentar. Nesse momento, parei pra pensar direito sobre o que estava lendo, tentando captar de onde vinha essa referência doida que a minha cabeça tinha feito.

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E lembrei de alguns trailers de filmes com a Kristen Stewart que eu tenho visto e como ela parece ter mais expressão que aquilo mostrado em Crepúsculo e me dei conta que a culpa daquela cara era da própria personagem Bella Swan. E comparando as duas (a narradora de Rebecca nem tem nome!), percebi que ambas tinham uma falta de confiança absurda, se comparavam com outras mulheres (no caso do livro da Daphne du Maurier, a protagonista se compara com a própria Rebecca, ex-esposa do seu marido) e como é de se esperar, a autoestima das duas estava o tempo todo no chão.

Mas bem, voltando ao susto que eu levei. Uma vez que eu finalmente tinha conseguido entender o que estava rolando com a personagem, comecei a perceber que eu estava extremamente incomodada com ela e lá fui eu de novo sentar e pensar sobre o que estava lendo. E percebi que existe algo de diferente entre ela e a personagem criada pela Stephenie Meyer. A personagem de Rebecca, além de todos os pontos citados ali em cima, ficava imaginando o que as outras pessoas falavam dela, as coisas que as pessoas estavam pensando sobre as situações, imaginava o que as pessoas esperavam dela e o que aconteceria se ela não fizesse tais coisas. Com isso, ela criava situações conflitantes e embaraçosas na cabeça dela e se fechava cada vez mais para o mundo.

Ela chamava isso tudo de timidez. Mas um belo dia, todos esses pensamentos negativos e infundados crescem demais dentro dela e a discussão com o marido não demora a chegar e devo dizer, meus amigos: foi uma das coisas mais difíceis de ler. E olha que eu já li muita coisa. Era ridículo como ela criava situações nada reais e como mesmo com o marido sendo sincero, ela só acreditava no que a cabeça dela tinha criado. Era desesperador.

E esse foi o susto. Foi perceber que eu já tive uma conversa dessa com meu namorado. Milhares de vezes. E que antes dessa conversa acontecer, eu fiquei alimentando dentro de mim diversos pensamentos absurdos sobre o comportamento dele para comigo, acreditando cegamente que eu sou uma pessoa horrível, que ele não merece alguém tão desorganizada, que eu faço tudo errado e só estou atrapalhando a vida dele. E que no final das contas, se ele estava agindo estranho comigo, só pode mesmo ser culpa minha, que não sei corresponder ao que todo mundo diz que uma boa namorada deve ser.

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Na verdade ele estava agindo estranho com todo mundo, vivendo um momento mais introspectivo, sofrendo com os próprios pensamentos e ansiedades e eu colocando em cima dele toda uma fantasia que vinha me corroendo há dias, alimentada por zero confiança e uma estima pessoal extremamente frágil. As vezes ele estava sendo ele mesmo e eu é que estava completamente fora de mim.

E isso tudo pode até parecer loucura, principalmente quando a gente percebe que essas crises podem ter um resultado verdadeiramente catastrófico, com milhares de possibilidades de fundo do poço.

Eu não sei bem o que é este texto, caso você esteja se perguntando isso nesse momento. Eu acho que é um desabafo, mas não queria que fosse. Sei que uma amiga veio falar comigo, dizendo que faz exatamente a mesma coisa que eu. E eu percebi que não faço tudo isso só com meu namorado, mas com alguns amigos também. Não é uma característica minha mas mesmo assim invade minha vida em níveis descomunais, me impedindo até de conhecer pessoas novas.

E eu não quero isso pra mim, não quero travas, amarras e muros entre eu e todas as pessoas e se outras meninas se sentem assim também, não deve ser algo da nossa geração, região ou círculo pessoal. Eu ouso dizer que é culpa das revistas, das propagandas, dos anos 50 que impuseram como uma boa mulher deve ser. Eu ouso dizer que a culpa é de toda essa competição feminina que eu tento tanto tirar de mim mas não desaparece porque eu convivi pelo menos 20 anos com ela sem nem saber que existia.

Ao mesmo tempo, será que meninos também sofrem disso? Eu não sei essa resposta e eu quero tanto saber!

Mas eu encerro por aqui porque eu quero que você pense um pouquinho sobre o que acabou de ler e venha conversar comigo sobre o que você acha que é essa coisa horrível que me abate e se te abate também, como é que ela se parece.

Porque eu sinto que existem muitas Natálias aqui dentro e uma delas é toda desconfiada do mundo todo e quer tomar o comando do meu corpo inteirinho e as vezes ela mantém os pensamentos sob controle e não é nada gostoso. Espero saber não lutar contra ela, nem controlá-la. Espero aprender a entendê-la e me defender de toda essa influência esquisita que ela me impõe.

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#Conversandosobre #DaphneduMaurier #Rebecca

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