• Napolitano como meu pé

Conversando sobre anotações ou como ser um baú


Esse post é uma mistura de uma conversa que eu queria puxar a um tempo e nunca sentei pra escrever e que essa semana se uniu a outra conversa que eu tô tendo em absolutamente todo lugar com todo mundo.


Te contar que eu nem sei direito como começar a falar sobre isso e apesar de na minha cabeça tudo se encaixar, não sei como vou unir uma coisa com outra. Sem contar que normalmente eu separo um tempo pra escrever, guardo o texto, volto nele dias depois e publico algo bem mais afiado e acurado mas o tempo ultimamente tem sido curto e não vai ser assim. Sentei no sofá, comecei a escrever e vou publicar ainda hoje.


Esse imediatismo da coisa até parece estar caminhando na contramão do que eu vou falar mas acho que não está. Aliás, esse nem é o começo da conversa. O negócio é o seguinte: você faz anotações? Você escreve nos seus livros? Se não escreve nos seus livros, você escreve em algum lugar o que aquele livro despertou em você em determinado momento? Onde você escreve?


Eu escrevo em todos os meus livros. Todos eles têm o meu tracinho em algum lugar, às vezes é um simples ponto de exclamação, de vez em quando um coraçãozinho pintado. Na maior parte das vezes são linhas e linhas destacando trechos que conversaram comigo de forma especial.


No começo eram só marcações de uma frase que eu achei bonita ou espirituosa, alguma fala que eu queria guardar e quem sabe usar na vida real e conforme minha forma de leitura amadurecia, eu comecei a destacar trechos inteiros de pensamentos filosóficos, questões metafísicas, referências históricas e políticas.


Mas eu sempre fui de reler livros e começou a acontecer de eu me deparar com esses trechos destacados e eles não me transmitirem absolutamente nada! Então eu ficava com cara de tacho olhando pra página rasurada com algo que só a Nati do passado saberia desvendar. O ensinamento que eu tanto quis guardar se esvaiu no tempo e morreu sem nem deixar marcas. Ou melhor: deixou, né? Aquelas páginas riscadas e sem vida.


Então surgiu a necessidade de anotar do lado o que eu tava pensando quando marquei a página: isso me lembrou aquele filme, esse trecho é praticamente o absurdo que aconteceu essa semana e virou notícia, essa palavra me lembrou aquela outra que foi dita no começo do livro. Só que mesmo isso era encontrado pela Nati do futuro com muita consternação e dúvida: o que eu tava querendo dizer?


Larguei a preguiça e comecei a anotar com exatidão o que eu tava pensando, escrevendo textos, indo a fundo no que aquela leitura estava me trazendo, em cadernos que foram aos poucos, ficando cheios de anotações e referências e frases coloridas.


É reconfortante ler tão plenamente de acordo com os próprios sentimentos e desejos mas é enervante demorar tanto! Esse ano, entretanto, estou sendo mais parcimoniosa em tudo, principalmente nas leituras. Nunca li tão pouco mas também nunca li tão bem. Me sinto confortável? Não 100%. Mas me sinto contente.


Obviamente isso gera um preço que no nosso mundo instagramável é irrecuperável. Inclusive, dizer que nosso mundo é instagramável é já um absurdo porque ó instagram virou plataforma de vídeos, né? Mas não é bem esse o problema porque o youtube e a twitch também são plataformas de vídeos e isso nunca foi um problema.


O problema é que o instagram era um mundo de imagens bonitas de onde a galera aprendeu a tirar um bom proveito. Falo agora desse grupo de pessoas que escolheram falar de livros na internet: conheço muitos perfis no instagram em que falar de livro, teoria literária, escola literária, autores, correntes críticas, movimentos artísticos, virou uma rotina gostosa e muito proveitosa. O espaço é curto, é claro e aqui também seria, mas o instagram ainda é, como plataforma de fotografia e imagens estáticas, uma forma de trazer curiosidade sobre o mundo da leitura e literatura.


Como plataforma de vídeos, temos algumas ressalvas. Isso porque de repente o instagram é um lugar mágico onde tudo é possível. Inclusive essa é a sensação que a gente tem se para pra pensar no que ele era bem no começo. Você postava fotos e era isso. Daí começamos a poder postar vídeos de até um minuto no feed, surgiu o IGTV com vídeos mais longos e apesar de resistir à ideia imbecil de revolucionar o mundo com vídeos verticais, surgiram as lives, que não vou mentir, essas caíram no meu gosto pessoal e logo em seguida, o reels. O instagram englobou todas as redes sociais, num rompante cada vez maior de ideação capitalista. Ok, essa última frase não faz o menor sentido mas eu não sei como terminar essa parte do texto e até que foi legal colocar um monte de palavra junta.


Mas voltando: com o IGTV, foi possível ampliar o diálogo com as pessoas, todas elas, e trazer pro seu círculo logarítmicos conteúdos mais profundos ou até mesmo deixar salva aquela conversa gostosa em forma de live. Eu agradeço muito por isso nesse mundo pandêmico. Mas agora, com a invasão dos reels, vejo tudo com olhos preocupados e pessimistas.


Eu sei muito bem que o tiktok tem sido responsável pela venda de livros nos últimos meses mas ainda não vi esse movimento acontecer no instagram. Por favor, venham mudar minha cabeça! Será que eu estou apenas com o algoritmo errado? Aliás, não vou entrar na questão desses numerinhos.


O que eu quero dizer é que não consigo imaginar alguém fazendo um conteúdo duradouro numa plataforma que não cansa de se modificar para conseguir mais moedinhas no bolso. Veja bem: estamos num mundo completamente 8 ou 80, em que Anne Frank falar do próprio corpo e de suas dúvidas sobre sexo é considerado pornográfico! Estamos num mundo em que nosso presidente passou longos meses defendendo um remédio sem eficácia comprovada! Não temos tempo sobrando para perder criando conteúdos incríveis pra ninguém. Não temos tempo sobrando pra criar conteúdos rasos e rápidos que serão esquecidos literalmente 30 segundos depois porque surgiu outro vídeo na tela.


Ao mesmo tempo, e aqui entra o papo sobre anotar coisas, eu adoro a ideia de ser um baú de conteúdos bem-pensados, talvez não originais mas que ajude alguém a complementar a leitura de um livro ou até mesmo a conversar sobre o que foi lido. Eu adoro trazer as minhas anotações para outras pessoas verem e adoro responder as leituras dos meus amigos com as minhas próprias anotações. Gosto de ser aquele baú que é aberto de tempos em tempos pra encontrar alguma preciosidade guardada. Isso significa que não vai ter coisa nova toda vez que o bauzinho napolitano for aberto, mas que aquelas coisas que estão guardadas há tempos podem ser úteis para coisas novas que surgiram.


Completamente fora do contexto baú napolitano mas ainda dentro do assunto, Glizia e eu temos esse costume de emprestar livros uma pra outra, livros cheios de post-its de anotação pra conversar e completar a experiência da outra. Porque é isso, ler é uma experiência, tanto quanto qualquer outra coisa que é feita nessa vida. Mas é uma experiência que pode ser enriquecida a cada dia e isso demanda tempo. Inclusive, filmes, músicas e artes no geral são experiências que demandam tempo e como é que a gente tá conversando sobre elas?