• Napolitano como meu pé

Conversando sobre a porta aberta e a hora certa de voltar

Desde que eu comecei essa vida de acabar um livro e imediatamente começar outro, passei a anotar obras e autores citados nos livros que lia para que algum dia eu pudesse voltar a eles e entender o porque deles aparecerem em outros lugares e serem tão importantes para livros que foram importantes para mim.



Entre esses autores, aparecia com certa frequência o Fraz Kafka e obviamente, seu A metamorfose. Mas ao mesmo tempo que era alimentada em mim a vontade de lê-lo, crescia também o medo dele. Eu tinha medo de ser demais pra mim, de eu não entender, de eu ser apenas uma criança para ele. Eu tinha medo de de repente não saber ler.


Veja bem, na verdade esse nem é um problema ligado ao Kafka em si, é um problema ligado à minha autoestima e minha visão de mim mesma: eu sempre acho que deixo escapar algo e que nunca sei ler objetivamente os livros e textos, então imagina só se eu lesse A metamorfose e simplesmente não conseguisse entender a importância daquele texto que tanta gente já tinha comentado e lido antes de mim.¹


Mas eu confesso que aconteceu de eu resolver fazer alguma coisa em relação a isso depois que eu trabalhei num livro da Hannah Arendt, o Escritos Judaicos, e ela reserva algumas palavras, em um texto, sobre algumas características que ela enxerga em escritores judeus que viviam longe de costumes judaicos. Kafka estava nessa lista e eu fiquei interessada demais em perceber nos textos dele os pontos que a Arendt levantou. Como eu ainda tinha medo de A metamorfose, resolvi começar por um livro de contos: Um artista da fome / A construção.



Infelizmente, achei difícil. Eu não sabia o que esperar da escrita do Kafka e encontrei um texto visceral demais e que a minha cabeça ainda não estava pronta para assimilar. Por isso mesmo, inclusive, eu nunca terminei esse livro. Eu lia os contos e não conseguia enxergar o que exatamente eu tinha acabado de ler, o que todas aquelas palavras juntas significavam. Se eu consegui encontrar o que a Hannah Arendt falava sobre ele? Eu encontrei nem sentido, imagina se achei qualquer filosofia mais profunda!?


E, apesar de, agora explicando o título desse texto, a porta sempre estar destrancada para a leitura de A metamorfose, eu nunca a abria. A primeira experiência acabou se mostrando ruim, principalmente para uma Natália que não tinha tanta paciência para pesquisar e abrir veredas em literatura. Mas na vida grande parte das coisas acontecem no susto e foi assim que eu fiz minha primeira leitura de A metamorfose.


Recebi um e-mail perguntando se eu tinha interesse em participar de um processo seletivo e uma parte do teste era escrever um texto de apresentação para A metamorfose. Eu entrei em pânico: queria muito o emprego mas não tinha certeza se conseguiria escrever algo decente sobre a novela. Inclusive, eu tinha certeza de que não entenderia o texto do Kafka! O que fazer, então?


Bem, primeiramente eu respirei muito fundo. Segundamente, mandei mensagem desesperada pra Glizia perguntando se ela já tinha lido e pedindo ajuda. Pesquisei edições e preços de A metamorfose porque sendo um texto em domínio público, existem muitas opções no mercado. Por sorte, eu já tinha comprado o e-book da Antofágica e foi ótimo! A edição apresenta uma variedade de textos muito boa que te abraça e prepara para a leitura e te recebe com conforto depois dela.


No final, ler A metamorfose foi uma delícia. É um texto curto mas não se engane: não é fácil. Isso significa que você até pode ler em um único dia, mas talvez essa leitura te peça mais tempo. Acelerei o passo e li em dois dias algo que eu facilmente leria em cinco. Muitos trechos me deixaram pensativa e dariam textos inteiros cada um deles e é justamente isso que é curioso.


Eu acredito demais que existe o tempo certo pra leitura de cada livro. Não um tempo de precisar ser maduro intelectualmente para a leitura, mas talvez maduro emocionalmente. Estar preparado para as demandas que aquele texto vai criar em você. E eu com certeza estava mais preparada para o Kafka mas definitivamente não estava madura emocionalmente pra ele. Foi muito difícil lidar com todas as coisas que me surgiram e o texto que eu escrevi foi um dos mais difíceis porque existiam tantas coisas que eu queria dizer e pesquisar que mal consegui focar no que devia dizer!


Digo isso porque a porta para ler Kafka de repente foi aberta e eu aproveitei para entrar. Entretanto, a hora certa de voltar para essa leitura ainda não chegou. Eu morro de vontade de reencontrar algumas das questões que o livro me trouxe mas me falta coragem. Principalmente porque eu conversei muito com a Glizia sobre elas, coloquei na balança e ponderei sobre muitas, mas eu preciso dedicar um tempo a isso. Preciso reler A metamorfose e mais uma vez não me sinto preparada pra ele.


E enquanto eu não releio e não escrevo milhares de textos sobre ele, você pode ler o texto que escrevi pro teste aqui. É notável como eu começo perdida e quando finalmente encontro o fio da meada, o texto precisa acabar…


 

¹ em tempo: não existe problema nenhum em ler um livro e não entendê-lo. faz parte da experiência tanto quanto entender demais o que leu. você pode desgostar de um livro por não entendê-lo, bem como gostar demais pelo mesmo motivo.