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Conto | Senhor Diretor (Lygia Fagundes Telles)


Senhor Diretor é o segundo conto do livro Seminário dos ratos da Lygia Fagundes Telles. O primeiro conto, As formigas, possui um fundo fantástico e a gente continua nesse sentimento quando começa a leitura de Senhor Diretor (pra ler sobre o primeiro conto, clique aqui).

E que incrível que não dá tempo de nem se decepcionar na leitura quando descobrimos que Senhor Diretor está muito longe de ser literatura fantástica!

Esse conto vai acompanhar o dia de uma mulher sexagenária, a Maria Emília. Ela está parada numa banca de jornais lendo as manchetes do dia, quando dá de cara com a capa de uma revista que apresenta um casal em pose sensual. Maria Emília passa então a criticar dentro de si a sociedade \”sem valores\” que está vivendo e decide que quando chegar em casa, escreverá uma carta para o diretor do jornal.

O conto é narrado através da perspectiva de mundo da personagem principal, e suas bagunças e desconfianças fazem com que seja impossível largar o conto antes do ponto final. Ou melhor, dos dois pontos finais.

É bem importante lembrar que o livro Seminário dos ratos foi publicado em 1977 e que nessa época o Brasil vivia em uma ditadura militar. Essa forma de governo mais repressiva, somada à educação conservadora que era dada às crianças até esse período, podem nos ajudar a entender todas as inconstâncias dos pensamentos de Maria Emília.

A senhora vai comentar toda a exposição escancarada dos corpos em revistas, as roupas femininas que encurtaram, a liberação sexual como um todo e como isso aparecia nas mídias da época, quase como um rolo compressor, esmagando tudo o que encontrava no caminho. Pessoas como ela, conservadora com orgulho e absurdada com toda a nova realidade, eram atingidas sem chance de sobrevivência, enquanto jovens e até algumas amigas suas, também sexagenárias, mergulhavam com gosto nos novos costumes.

A escrita da Lygia nesse conto é maravilhosa e comparada ao conto anterior se torna extremamente preciosa. Vamos descobrindo detalhes sobre a personagem através de um fluxo de consciência que em nada fica devendo ao fluxo da Clarice ou da Virginia, famosas por esse estilo literário.

Pra terminar (se deixar eu conto tudo e ainda aumento um ponto!) eu queria apenas deixar registrado, talvez até mesmo pra Natália do futuro, o quanto a Lygia foi avançada ao falar de feminismo no tom de alguém que se questiona sobre ele (ainda mais alguém como a Maria Emília). E achei extremamente visionário comentar sobre a cena da manteiga, que aparece no filme Último tango em Paris e explico.

Último tango em Paris é um filme dirigido por Bernardo Bertolucci e que ficou famoso por conta da tal cena da manteiga, citada no conto. O que acontece na cena é absurdo e você pode ler sobre aqui. Acontece que o filme foi lançado em 1972 mas só apareceu por aqui em 1979. O grande detalhe, então, é que o conto é de 1977 e a própria personagem só fica sabendo da cena por causa de uma amiga que assistiu ao filme no exterior. Não sei se a cena ficou famosa aqui no Brasil antes de seu lançamento, sei apenas que é um filme bastante adorado por muita gente que assistiu nessa época. Mas achei a Lygia bastante visionária, porque justamente essa cena da manteiga voltou à pauta tantos anos depois e virou novamente fruto de muitas discussões. Não sei, na verdade, como a cena foi recebida nos cinemas daqui. Esse é um conhecimento que eu gostaria de ter, principalmente porque dá para entender que o leitor de 1977 talvez ficasse um tanto alienado do assunto da cena da manteiga. O visionário está justamente no fato de hoje em dia todo mundo saber exatamente do que se trata.

Mas é isso. Se você souber como foi a recepção do filme por aqui, conta pra mim. E me fala também de contos e livros que você achou bem visionários!

UPDATE 09 DE SETEMBRO DE 2019

Esse fim de semana, ironicamente o fim de semana em que se comemora a independência do Brasil, foi o último fim de semana da Bienal Internacional do Rio de Janeiro e desde sexta o país inteiro foi empurrado pra dentro de uma polêmica.

Eu estou escrevendo isso aqui quase como um diário, porque não quero esquecer tudo o que aconteceu nem esquecer que a literatura continua se unindo à vida real. A literatura só existe por causa da vida real e isso é muito importante de ser lembrado.

Sexta, 6 de setembro, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, colocou fiscais da Secretaria da Ordem Pública para identificar e lacrar livros considerados impróprios. Não vou contar a história toda, você pode ver mais nos links no final do post.

Basta dizer que tudo começou com o quadrinho Vingadores: a cruzada das crianças, passou por livros da Record sendo censurados, todos os livros de temática LGBTQ+ sendo comprados pelo Felipe Neto e distribuídos gratuitamente na Bienal e terminou com um boato de que um livro adulto, comprovadamente publicado apenas em Portugal, com temática sexual, estava sendo vendido para crianças na Bienal.

E por que estou rememorando tudo isso? Porque hoje, com a cabeça um pouco mais fria, ou melhor, com a cabeça focada nos problemas diários do meu trabalho, pude perceber a semelhança desse caso absurdo de censura com esse conto da Lygia Fagundes Telles. Uma mulher se escandaliza com tudo o que vê e acha que esse tudo precisa voltar ao que era antes. Nada de mulheres tendo papeis mais ativos na sociedade, nada de assuntos minimamente sexuais nos meios de comunicação. E hoje em dia, nada sobre homossexualidade num evento plural como uma Bienal de livros.

E é isso. Em 1977 a Lygia tava escrevendo sobre algo que acontece ainda hoje e é por isso que a literatura ainda existe e com força. Porque se a gente não consegue enxergar sozinhos a situação, a literatura escancara pra gente. E se existe literatura e bienais e eventos literários no país o tempo todo, é justamente porque existe um mundo real absurdo que precisa ser desvendado e engolido e que esses escritos nos ajudam a entender.

Se você não quis clicar nos links aí de cima, eles estão aqui:

Marcelo Crivella manda censurar HQ dos Vingadores na Bienal do Livro, no Rio

Fiscalização na Bienal não encontra livros em \’desacordo\’ com as normas, diz prefeitura

Livros censurados da Record

Livro português Gêmeas Marotas

Felipe Neto doa 14 mil livros

E pra terminar, encontrei uma lista muito bacana sobre quadrinhos que foram censurados ao redor do mundo:

De Batman a Elektra: os quadrinhos censurados da história

#Contos #LygiaFagundesTelles