• Nati Aguilar

Conto | As formigas (Lygia Facundes Telles)

Atualizado: 10 de abr.

Minha história com esse conto começa no processo de compra do livro Seminário dos ratos: comecei a pesquisar livros de contos da Lygia Fagundes Telles e quando decidi por este, resolvi ler o primeiro conto pela amostra que a Amazon disponibiliza no site.


Devo dizer: detesto ler no computador ou no celular. Matérias de jornais e revistas eu aceito, mas livros, eu começo a ficar ansiosa, quero anotar e não consigo, não encontro posição confortável, uma aflição só. Assim, comecei a leitura já pensando em pará-la, antevendo todo o sofrimento.

Mas a atmosfera desse conto nasce pronta: você lê a primeira frase e já foi fisgado, terminou o primeiro parágrafo e não tem mais volta.

A história é simples em sua base e é acrescida por algumas coisinhas que parecem bem aleatórias se você pensar naquilo longe do ar de suspense do conto. Duas primas estudantes se mudam para uma pensão que, só a aparência externa é suficiente para lhes tirar o fôlego. Apreensivas, sobem as escadas e entram no quarto reservado a elas pela proprietária, que quando apresenta o quarto (por si só bizarríssimo!), mostra uma caixa no chão em que alguns ossos foram deixadas pelo locatário anterior.

Analisando o material, a prima da narradora, uma estudante de medicina, se interessa por aquilo por ser um material raro e se compromete a montar o esqueleto no fim de semana. Entretanto, já nessa primeira noite, algo estranho acontece: durante a madrugada, uma fileira de milhares de formigas aparece e se encaminha decidida para dentro da caixa. As tais formigas parecem surgir do nada e vão para lugar nenhum. No dia seguinte, parece não ter acontecido nada, a não ser por algumas particularidades que vão sendo exploradas ao longo da história.

Aliás, Lygia não dispensa detalhes, documenta tudo e a cada frase a tensão só aumenta. Digitando isso aqui, lembrei do livro O bom filho, da autora coreana You-Jeong Jeong, com todas aquelas descrições que só me faziam sofrer. O que será que muda de uma narradora pra outra que fez eu me sentir assim?

De qualquer forma, o conto se encaminha para o fim numa velocidade alucinante, ao mesmo tempo em que nada realmente muda no ritmo da narrativa.

Tudo vai ficando mais denso enquanto a gente lê, parece até que conseguimos sentir o tal cheiro de bolor que a narradora tanto fala – inclusive, eu nunca pensei em como descrever o cheiro de bolor! Eu achei a Lygia genial durante o conto inteiro mas nisso ela me ganhou completamente.

O conto é bem curtinho, a gente lê tudo de uma vez. Quando acaba, nos perguntamos o que raios acabamos de ler. É intrigante, abrupto e suave. Eu que não sou chegada a livros de contos porque não consigo ler num bom ritmo sem esquecer a história que acabei de ler, queria devorar o livro inteiro.

Eu gostaria de ficar aqui falando e falando sem parar sobre As formigas, contar todos os spoilers e esperar você ler pra conversar comigo. Mas me contento em parar por aqui e te esperar de qualquer forma. Venha. Esse conto merece.

\”Quando minha prima e eu descemos do táxi já era quase noite. Ficamos imóveis diante do velho sobrado de janelas ovaladas, igual a dois olhos tristes, um deles vazado por uma pedrada. Descansei a mala no chão e apertei o braço da prima.\” (p. 9)

Sobre a minha edição, li na nova revisão feita pela autora para a Companhia das Letras, de ISBN 978-85-359-1547-1

#Contos #LiteraturaBrasileira #LygiaFagundesTelles #Obomfilho

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